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Excessos que prejudicam a vida do casal

Em entrevista à jornalista Érica Andrade da Revista do Correio, psicólogo Márcio Roberto Regis (CRP 08/10156) fala sobre os excessos que podem prejudicar a vida de um casal, enfatizando as manias patológicas nos relacionamentos.

Revista do Correio: Existe alguma explicação para essa obsessão que algumas pessoas desenvolvem por alguns assuntos específicos?

Psicólogo Márcio Roberto: Essa obsessão pelo trabalho, pelo futebol, por uma religião, entre outros assuntos específicos são idéias e pensamentos que envolvem o indivíduo em cada uma dessas circunstâncias (as vezes “facilitadoras”) do meio que acabam dificultando a saída do mesmo dessa situação patológica independente de sua vontade. O indivíduo cria um comportamento compulsivo leve ou grave. Quanto menor foi seu comportamento compulsivo ou simplesmente circunstancial, menores ou ausentes serão as conseqüências no meio onde essa pessoa está inserida, em contra partida, quanto maior a freqüência do comportamento compulsivo-obsessivo, maiores serão as conseqüências de conflito e problemas pessoais e profissionais do indivíduo, podendo assim levar às obsessões específicas sendo ainda mais complicado de se livrar dessas idéias e comportamentos patológicos, como por exemplo, arrumar a casa, lavar as mãos diversas vezes ao dia por medo de se contaminar, arrumar objetos em posições simétricas, verificar se o gás está fechado insistentemente, verificar portas e janelas se estão devidamente fechadas o tempo todo, isso é caracterizado transtorno obsessivo compulsivo, conhecido como TOC.

Revista do Correio: Em que medida isso prejudica a relação familiar, já que a personalidade se altera?

Márcio Roberto: A relação poderá ser prejudicada se essa patologia apareceu durante o casamento, daí sim pode existir o fim do casamento, por outra pessoa começar a perceber tais comportamentos obsessivos-compulsivos. A mulher começa a discriminar e percebe que tem algo de errado, pois antes seu marido não tinha essas manias comportamentais. Caso contrário, se questões comportamentais obsessivas já vem de longa data, antes do casamento, a cônjuge nem se quer repara que seu marido tem TOC e sua companheira acaba aceitando do jeito que ele é, ou seja, em outras palavras, eles acabam se adaptando um ao outro se dando bem ou não, ficando num ciclo vicioso de relacionarem.

Revista do Correio: É possível tratar? Não seria necessário que a pessoa reconhecesse que ela está com problemas? 

Márcio Roberto: Bem, as pessoas com comportamentos compulsivos, nem sempre conseguem se notar que estão com algum problema, são teimosas, nada flexíveis. Uma das características do TOC, a pessoa desenvolve uma rigidez e perfeccionismo muito grande em sua vida, com o que tem a sua volta, com objetos sobre a mesa de trabalho ou em casa, pois nada pode estar fora do lugar, tudo tem que estar simetricamente colocado, os sapatos tem que estar de um jeito, nada pode estar fora do lugar. Algumas pessoas com TOC conseguem perceber que precisam de ajuda e recorrem à especialistas. Empiricamente a psicologia cognitivo-comportamental tem mostrado excelentes resultados para resolver tais problemas aliados ao serviço da psiquiatria. O tratamento para TOC é multidisciplinar sendo necessário acompanhamento psicológico e medicamentoso.

Revista do Correio: Qual o caminho mais indicado para solução do caso? O que o Sr. aconselharia a nossa leitora?

Márcio Roberto: No caso da leitora da Revista Correio, seria uma queixa mais específica. O pior excesso que pode prejudicar um casal, seria o excesso da falta de diálogo entre eles. Seria interessante ela poder conversar com seu marido o por quê ele se distanciou dela e refletir juntos porque o casamento se desgastou. Excelente momento para trocar idéias. Não podemos pensar num casamento sem crises, sem desafios e principalmente na mesma coisa como era a 10 ou 20 anos atrás. Estamos a cada dia nos renovando, estamos em constante mudança física e psicológica, e a cada ano novos desafios, novas necessidades. O que esse casal faz para reciclar seu relacionamento? Ela conversa com seu marido sobre suas insatisfações e vice-versa? No meu ponto de vista, recomendaria uma terapia de casal para que tivesse um psicólogo intermediando esse diálogo podendo, dessa forma, analisar de onde o casamento começou a se desestruturar, frisando que cada um deve ter suas individualidades e crenças sem interferir na do outro, o que tornaria o casamento ainda mais interessante.

Revista do Correio: O sr. conhece algum caso que poderia nos contar, com sigilo dos nomes, é claro?

Márcio Roberto: O que tenho observado com relatos de amigos próximos e a própria pesquisa que estou desenvolvendo sobre sexo virtual e infidelidade, é o uso abusivo e indiscriminado da Internet. Na sua grande maioria, mulheres reclamam que seus maridos estão cada vez mais ligados em sites pornô ou fazendo sexo virtual. Isso vem se tornado motivo de divórcios e separações entre casais. A Internet conseguiu dinamizar a vida da população, trouxe-nos novos desafios e junto com tudo isso, novos problemas, novas formas de nos relacionarmos na (e com a) Internet. Os apaixonados pela tecnologia, seja o marido ou a esposa, o computador veio subtraiu dos casais o tempo que estes gastariam na companhia de seu cônjuge. Muitas mulheres morrem de ciúmes dessas máquinas e a situação só piora quando seus maridos ficam horas a fio na frente do microcomputador, navegando na Internet, trabalhando ou jogando. O uso abusivo dessa tecnologia está sendo muito conflitante nos casamentos, qualquer um está sujeito a ficar viciado em chats, sites com conteúdo adulto e sexo virtual, gerando excessos e atrapalhando o relacionamento de um casal. O computador tem tanta interação na vida real e virtual que a própria Internet pode ser um intermediador e cúmplice do término de uma relação em apenas um clique.

 

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