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Sistemas de Memória
Autora:
Profa. Dra. Flávia Heloísa Dos Santos

“Minha memória e a sua, apesar de embaraçosas falhas ocasionais, excede o melhor computador em termos de
capacidade, flexibilidade e durabilidade”. Alan Baddeley

Memória é uma função cognitiva caracterizada pela habilidade de adquirir, reter e usar informações ou conhecimentos.

Há vários sistemas de memória, os quais dependem do funcionamento de diferentes regiões encefálicas, sendo que algumas áreas cerebrais são mais importantes para certos sistemas de memória do que para outros. Estes sistemas, usados nas mais variadas situações cotidianas, são divididos em curto prazo e longo prazo. O primeiro refere-se à capacidade para reter poucos itens por alguns segundos, por exemplo quando o vendedor precisa buscar no estoque um sapato da cor, modelo e tamanho que o cliente solicitou. O segundo diz respeito à capacidade para reter muitos itens por intervalos maiores de tempo como minutos, dias e anos, tal como a lembrar onde você estava quando o Brasil foi penta-campeão mundial.
Atualmente o armazenador de curto prazo é referido como memória operacional, um sistema responsável pela estocagem e manipulação temporária de informações usado por exemplo na comparação de qualidades e defeitos de apartamentos vistos para escolher aquele que será alugado.

A memória operacional possui múltiplos componentes: um controlador atencional, o executivo central, e dois componentes subsidiários: a alça fonológica (para informações baseadas na fala, como memorizar ao sair do estacionamento as direções ditas por outro motorista para chegar a avenida principal) e o esboço vísuo-espacial (equivalente para informações visuais usado, por exemplo, para imaginar uma nova disposição dos móveis do escritório para que caiba mais um arquivo). Recentemente, mais um componente foi adicionado a esse modelo, denominado “buffer” episódico, responsável pela integração de informações tanto dos subsistemas quanto da memória de longo prazo, em uma representação episódica única, porém de códigos multidimensionais.

Para que se possa entender a interação entre os componentes da memória operacional, imagine que você tenha que realizar cálculos mentais seguindo equações escritas numa folha de papel (ex. 3 + 6 = 9) e decidir se os números resultantes são pares ou ímpares. Em cada caso, o uso da memória operacional incluiria a representação mental da equação escrita através do esboço vísuo-espacial e a tradução dos símbolos escritos em números pronunciáveis na alça fonológica; os conceitos de soma, par ou ímpar aprendidos previamente, o resultado parcial, bem como as informações armazenadas nos subsistemas, ficariam ativados de forma integrada no “buffer episódico”, enquanto o executivo central coordenaria o processamento dessas informações até que as respostas fossem dadas.

A memória de longo prazo subdivide-se em explícita ou declarativa (memória para fatos, imagens e lembranças de experiências passadas, como lembrar o seu próprio nome) e implícita ou não-declarativa (memória para habilidades motoras ou perceptivas recordadas), que inclui condicionamentos e procedimentos como andar de bicicleta, nadar, digitar e pré-ativação [1]. Estes termos relativamente se eqüivalem, porém, destacam características diferentes: Declarativo para memórias dependentes do lobo temporal medial e diencéfalo, tipicamente afetadas em amnésicos; não-declarativo para as memórias preservadas em amnésicos e dependentes de outras estruturas cerebrais. Explícito quando a evocação ocorre com “consciência” pessoal do indivíduo sobre o contexto da aprendizagem; Implícito quando a evocação da informação não é consciente ou intencional.

Sabe-se que o aprendizado inicialmente explícito pode tornar-se habilidade implícita, uma situação típica é quando um aprendiz está na auto-escola. Cada um dos procedimentos para movimentar o carro (girar a chave, pisar na embreagem, mudar a marcha, etc.) é a princípio fragmentado, a medida que o motorista vai adquirindo práticas de direção, passa a executar estes movimentos quase que automaticamente, podendo então deslocar sua atenção para a sinalização de trânsito, os demais carros e, ainda ouvir uma música ou conversar com o seu acompanhante.

A memória explícita classifica-se, ainda, em semântica quando refere a capacidade de adquirir conhecimento sobre o mundo, incluindo fatos, conceitos e vocabulário, tal como saber quem descobriu o Brasil; e em episódica, aquisição e recuperação de informação sobre experiências pessoais específicas que ocorrem em um tempo e lugar específico, ex. "ontem a tarde eu fui ao dentista".

O processo de formação da memória envolve três etapas de processamento da informação e requer a integridade funcional de vários mecanismos:

Aquisição ou registro. Trata-se da condução da informação ao cérebro via órgãos sensoriais e córtex sensorial primário. Esta etapa depende da atenção e da percepção. Fatores como fadiga, ansiedade e preocupação podem interferir neste processo.

Consolidação ou retenção. Consiste na conservação do conhecimento através de uma representação significativa no cérebro. Esta etapa é reforçada pela repetição ou pela associação com outros dados já armazenados na memória.

Recordação ou recuperação. Refere o acesso a informação armazenada. Este processo pode ser espontâneo ou se dar pela busca voluntária ou através de pistas. A recordação poderá ser influenciada por fatores internos (humor, motivação, necessidade, interesse) ou externos (local, ambiente, pessoas presentes).

Mas nem sempre as memórias funcionam conforme nossas expectativas. Diversos fatores podem estar associados ao declínio no funcionamento da memória, a saber:

1. psicofármacos como benzodiazepínicos, anestésicos [2], anticolinérgicos e os primeiros anticonvulsivantes, etc.
2. abuso de substâncias: LSD [3] , maconha, álcool, etc.
3. estresse (por ex. privação de sono)
4. distúrbios cerebrais: neuronais (ex. epilepsias, esclerose múltipla), vasculares (AVC - acidente vascular cerebral), metabólicos (Síndrome de Korsakoff), genéticos (Fenilcetonúria, Síndrome de Down, entre outras) e traumáticos (TCE - traumatismo craniencefálico).
5. envelhecimento.

Qualquer processo que interfira na formação da memória de curto prazo ou a sua fixação em memória de longo prazo resulta em amnésia, isto é, em incapacidade parcial ou total de reter e evocar informações. A amnésia pode ser classificada como orgânica quando há distúrbio no funcionamento das células nervosas ou psicogênica quando fatores psicológicos inibem a evocação. A amnésia é dividida em retrógrada - incapacidade para recordar eventos anteriores ao distúrbio e anterógrada - incapacidade para evocar eventos posteriores ao distúrbio.

Processos mnésicos e amnésias são estudados pela Neuropsicologia, que se dedica ao estudo da expressão comportamental das disfunções cerebrais. A avaliação neuropsicológica é o método pelo qual as habilidades do paciente para formular, planejar e implementar comportamentos intencionais são mensuradas. Funções cognitivas afetadas são tratadas por reabilitação neuropsicológica que visa estabelecer estratégias adaptativas compatíveis com as demandas do ambiente. Embora a neuropsicologia seja um ramo de conhecimento interdisciplinar, sua prática no Brasil - diagnóstico, acompanhamento, reabilitação e pesquisa - é reconhecida como especialidade em psicologia pela Resolução 002/2004 do Conselho Federal de Psicologia.

Literatura Recomendada
BADDELEY, A.D. (2000) The episodic buffer: a new component of working memory? Trends Cog Sci.;4: 417-23.

BADDELEY, A.D. & HITCH, G. (1974) Working Memory. In: Recent advances in learning and motivation. Bower, G.A. (ed) pp 47-90, Academic Press

BUENO, O.F.A. & OLIVEIRA, M.G.M. (2004) Memória e Amnésia Em: Andrade VM, Santos FH & Bueno OFA (eds.) Neuropsicologia Hoje. São Paulo: Artes Médicas.

SANTOS, F.H. (2002) Memória operacional de crianças normais e com lesões congênitas: desenvolvimento cognitivo e reorganização cerebral. São Paulo. [Tese – Doutorado – Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina]

SANTOS FH e MELLO CB (2004) Memória operacional e estratégias de memória na infância. Em: Andrade VM, Santos FH e Bueno OFA. (eds). Neuropsicologia Hoje. São Paulo: Artes Médicas.

SANTOS FH (2004) Reabilitação Neuropsicológica Pediátrica. Em: Andrade VM, Santos FH e Bueno OFA. (eds). Neuropsicologia Hoje. São Paulo: Artes Médicas.

TULVING, E. (1972) Episodic and semantic memory. In: Tulving E, Donaldson W. Organization of the Memory. New York: Academic Press; p.381-403.

Flávia Heloísa Dos Santos é Psicóloga, Especialista em Psicologia da Infância pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP, Doutora em Ciências (UNIFESP) e Pesquisadora do Departamento de Psicobiologia da UNIFESP, Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista - UNESP, Membro da Federação Mundial de NeuroReabilitação - WFNR.
E-mail: flaviahs@psicobio.epm.br

Site da Psicóloga Flávia dos Santos: http://hometown.aol.com/flavinska/myhomepage/profile.html

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