Se você é pai... Se você é mãe... perca alguns minutos...
e aprenda a compreender melhor seu filho adolescente...
Psic . Gilka Correia
CRP-08-755
Tentar adentrar no território do mundo adulto, desejado e temido, não é tarefa fácil para o adolescente.
Não mais criança e ainda não adulto, buscando ocupar um espaço, o jovem sente-se em um território inóspito, ainda a ser conquistado. Parafraseando Leminski (1985 ):
“Quando eu cheguei eles já estavam lá e sabiam de tudo... Só me restava inventar o futuro. Não me dão chance. Até parece que têm medo. Como se eu estivesse vindo para tirar o lugar de alguém. Logo eu que só quero aprender, e quem sabe ensinar alguma coisa. Como se eu fosse cego, como se eu fosse menor. Nenhum deles se dá ao trabalho de me olhar bem nos olhose ouvir o que tenho a dizer.”
A família desempenha um papel relevante na história da pessoa. Entendemos por “família ” a unidade social gerada por consangüinidade e mantida por laços de dependência afetiva e eonômica . É a primeira sociedade em que o indivíduo convive. Sob o ponto de vista psicológico, a família é uma unidade de personalidades interatuantes . Constitui um campo de gravitações, onde cada pessoa ao se modificar, provoca alteração do equilíbrio total do sistema.
Como num jogo de xadrez, cada elemento tem uma posição que pressupõe certas atuações e desempenhos de papéis. Esses papéis são carregados de expectativas, regras, normas, tanto do próprio sujeito como outros em relação a ele. Tudo isso num contexto dinâmico de ação e reação .
Ser filho pressupõe relacionar-se com outra relação, numa forma triangular: mãe - pai - filho. Todo filho está, então, inscrito numa linhagem, e carrega o peso da história de cada um dos seus pais. Um filho, sempre tem um significado e um sentido mais além, para o pai e a mãe, como a realização do seu desejo. Antes mesmo de nascer já se desenha em certo destino, no sentido de expectativas que deverão ser cumpridas. Isso é explicitado na escolha do nome, das roupas, dos brinquedos, dos amigos e da escola. O filho é pois , a realização do desejo e da fantasia dos pais. E tudo caminha tranquilamente até os 10 anos, mais ou menos, porque os pais estão convencidos do seu princípio de autoridade: “eu sei, eu mando”. A criança vê nos pais a autoridade máxima e a fonte de todos os seus conhecimentos: minha mãe não deixa, meu pai não quer, minha mãe falou que..., meu pai me ensinou que... , são frases comuns na linguagem da criança. São ditas com orgulho diante de seus amigos, como evidência que os seus pais sabem tudo sobre todas as coisas, e ainda o que é melhor para eles - filhos. O desejo mais intenso e mais importante da criança na infância é identificar-se com os pais, imitando-os nas suas brincadeiras. Incorpora e vivencia os modelos familiares de forma inquestionável. É a fase da idealização dos pais. O controle da vida infantil se faz através do decálogo: farás - não farás . E assim reina a paz no contexto familiar, até que os primeiros sintomas da puberdade e da crise da adolescência se anunciam ....
Os modelos, normas e regras familiares começam a ser desrespeitados . Em seguida, começam a ser questionados . Surge a rebeldia característica dessa fase de desenvolvimento, e a lógica perfeita das argumentações... A harmonia está quebrada!
O tempo passou tão depressa, os pais nem se deram conta, e , de repente, coisas estranhas começam a acontecer:
O pai , vê sumirem misteriosamente das suas gavetas meias, cuecas e camisetas... algumas delas..., geralmente as novas ou as melhores! Lâminas de barbear desaparecem do banheiro, ou surgem displiscentemente esquecidas, usadas e sujas...
A mãe , vê seus potes de cremes esvaziarem-se, e percebe que há sociedade na sua maquillagem ... Prepara-se para ir fazer a sua ginástica e não encontra a sua malha preferida..., vai ao seu guarda roupa e pretende vestir um conjunto, encontra a calça comprida e não encontra a jaqueta... ou encontra a jaqueta e falta o jeans novo que ainda nem estreou... Isso também apenas com “algumas” roupas, pois o resto do guarda roupa da mãe é considerado pela adolescente, inútil, “um lixo” , ou melhor dizendo, roupas ridículas .
Outras situações também são comuns: o menino chega e diz ao pai:
-Vou acampar com os meus amigos no final de semana.
O pai contesta:
-Você está pedindo ou comunicando?
Não deveria ter feito essa colocação, pelo menos dessa forma, pois a resposta certa será:
- Comunicando, é claro!
O pai contra-argumenta:
- Então não vai.
- Por que não posso ir? insiste o filho.
- Porque eu me preocupo quando você está fora de casa.
Tenta explicar o pai, mas não convence.
- Então você é que se preocupa e eu é que não vou.
- É. Há muitos perigos hoje em dia, e eu me preocupo...
- Então o problema é seu... ”
O filho encerra a discussão, com uma dedução lógica perfeita.
Está estabelecido o confronto de autoridade.
A menina, toda animada, comenta:
- Vou ao shopping hoje a tarde, tomar um sorvete com as minhas amigas.
A mãe diante da atitude inesperada , retruca :
- Ah, não! Naquele ambiente de perdição? Hoje não... além do mais você tem que estudar...
A argumentação vem imediata.
-E eu não posso me divertir e estudar ao mesmo tempo?
Não se dando por vencida a mãe tenta impor-se:
- Então eu vou junto.
A resposta pode ser algo assim:
- Tudo bem... Se quiser “queimar a cara” diante das minhas amigas, pode ir... vai fazer um papel ridículo...
E o pior é que a adolescente tem razão... Nada mais ridículo do que uma mãe de adolescente tentando enturmar-se e participar do grupinho, ou igualar-se e competir em roupas, atitudes e vocabulário...
A rotina familiar está revolucionada. Por situações semelhantes, os pais percebem que têm um adolescente emergente dentro de casa. Se dão conta, no convívio diário, que têm diante de si um novo ser. Essa descoberta os coloca diante de duas situações inesperadas, para as quais não estão preparados para lidar: rivalidade e competição.
Essa descoberta é sempre acompanhada pela perplexidade dos pais:
Eu, não reconheço mais os meus filhos...Aonde foi que errei...
Essas mães podem escutar: - Ih, drama agora não! Não tem nada a ver... Qual é!
O adolescente, em busca de si mesmo, se rebela, questiona, critica todas as normas familiares e cria novas, as mais exóticas. Agride com a roupa desleixadas, a música alta, a gíria incompreensível, a organização caótica do seu quarto, que expressa a sua desorganização interna ... Agride com as atitudes descuidadas, a postura corporal petulante, as expressões faciais de ironia ou arrogância, o olhar desafiador...
Agride até quando fica calado e não responde.
O adolescente troca a opinião dos familiares pela do grupo - geralmente antagônicas - e é a turma quem dita as novas regras de conduta. Torna-se corajoso, diz “não temer a nada” , sente-se poderoso. Contradiz-se, reivindica, contesta, mas é ambivalente .
Quando está sem a turma, é porque está indo ou vindo do encontro com o grupo.
O controle da família inclui mãe, pai, avós, tios e tias. Querem antecipar situações e precipitam desencontros. A mãe pergunta, à , emima , por exemplo:
- Quem é êle ? , quer saber se é amigo, colega ou namorado . Pode receber como resposta muito autêntica:
- E é preciso ter rótulo? Nem mesmo eu ainda sei...
Assume posição de negativismo às regras estabelecidas, e ameaça evocando o Estatuto da Criança e do Adolescente. Em defesa dos seus direitos, apenas, esquecendo-se dos deveres correlatos, evidentemente.
Toma atitudes de homem ou mulher, mas receia pequenas decisões. Fantasia, busca uma profissão, às vezes, torna-se místico ou intelctual.O seu humor diário flutua...
Toda essa onipotência aparente esconde um ser inseguro e frágil, que de repente, busca aconchego e “colo” , como uma criança pequena.
Essa vivência é marcada por tensões, turbulência, sentimentos e ações imprevisíveis.
Normalmente evidenciam sintomas, que ao adulto parecem anormais. É a conhecida psicopatologia normal da adolescência, no dizer de Maurício Knöbel .
O adolescente está elaborando muitas “perdas infantís ” e vivencia três lutos fundamentais:
O primeiro luto, é em relação a perda do corpo infantil , tendo de conviver com uma estatura e uma dimensão diferentes, e ainda escutar os comentários alarmistas das amigas da mãe, (que detesta):
“Meus Deus, como este menino cresceu... ”
O segundo luto, relaciona-se com a perda dos pais infantís , idealizados como fortes e perfeitos. Entra no processo de desidealização , e passa a perceber os pais como eles realmente são.
O terceiro luto , é a perda da identidade infantil e o sexo infantil. Têm que assumir um papel sócio-sexual condizente com o comportamento estabelecido pela sociedade como o esperado para o seu sexo. O adolescente está em permanente debate consigo mesmo, e com o mundo, tentando adequar-se ao esteriótipo do masculino e do feminino definido pelo contexto social onde convive.
O adolescente tem a tarefa de tentar responder a questões vitais como:
Quem sou eu?
O que significa ser homem ou mulher?
Como deve ser se comportar um homem ou de uma mulher?
Tenho que seguir as idéias de meu pai e minha mãe?
E se eu não concordar com eles
Tudo parece tão diferente...
A busca de uma nova identidade leva a uma transição constante. Uma nova maneira de encarar o mundo exige que o jovem passe a limpo seu psiquismo e reedite sua personalidade. Essa exigência é tão forte que, adolescentes que elogiam muito os pais, ao serem arguidos se querem repetir o destino deles, a resposta é sempre não .
Precisa de pontos de referência. Testa continuamente os seus limites. Espera dos adultos certos parâmetros, não aceitá-los imediatamente, mas exatamente para confrontá-los com os seus, e alimentar as suas ponderações e reflexões.
Este grito de independência dos filhos encontra seus pais, do outro lado, em torno dos quarenta e poucos anos, em outro tipo de crise... A constatação de que:
se os seus filhos já não são mais crianças e estão se tornando adultos,então eu estou envelhecendo...
Os pais também entram em questionamento sobre a sua própria vida afetiva e profissional.
A cada passagem de um estágio de vida para outro vivenciamos crises, e temos de mudar uma estrutura de proteção. Ficamos, por períodos maiores ou menores, de acordo com as possibilidades de reestruturação de cada um, expostos e vulneráveis. Mas voltaremos ao equilíbrio se formos capazes de nos entendermos de modo diferente.
Dúvidas se instalam:
É isto realmente que eu queria para minha vida?
Será que valeu a pena tudo o que eu fiz até agora?
E o que farei depois que meus filhos se afastarem e não necessitarem mais dos meus cuidados?
Deverei mudar de vida?
Será que ainda tenho chance?
Ou será que não estou mais em idade de mudar nada...
Muitos pais também resolvem passar a limpo as suas vidas...
As demandas dos filhos adolescentes remete -os à sua adolescência, e aos conflitos não resolvidos ou mal resolvidos. Tudo isso coloca-os em cheque...
Conclusão: Temos adolescentes e pais em crise.
Como resolvem a situação?
Muitos pais não estão disponíveis para questionarem-se nessa crise existencial. Assumem posições extremas: indulgência - permitem tudo, liberam, transferem suas frustrações, tornam-se também adolescentes, competem com os filhos, em roupas, na linguagem, nas atitudes...
repressão - moralismo, excesso de críticas, proibições, nada de modernismos...
“Faço como meu tempo”, ‘Fui criada assim, aprendi assim, e vou educar meus filhos do mesmo modo...
Conseqüências das posições extremadas: jovens sem consciência de limites, inconseqüentes, inadequados na escola e na sociedade em geral, sem respeitar autoridade, revoltados, burlando a vigilância familiar, ou agindo exatamente ao contrário das normas e valores sociais vigentes.
Em educação, a maior dificuldade quando os filhos vão crescendo é ir alargando os limites com compreensão, amor e carinho.
Na maioria das vezes, a dificuldade de relacionamento entre pais e filhos adolescentes, tem duas causas básicas:
-de um lado, a falta de percepção dos pais, que não se dão conta de que um menino ou menina de 14 anos , é já um adulto, em quase todos os aspectos. Tem necessidades de adulto e permanece no estado de dependência infantil. De outro lado, em função disso, o adolescente percebe que os pais estão controlando, impondo, sugerindo: faça isso, faça aquilo, etc. etc., como se ainda estivessem lidando com uma criança de 8 anos, sob a qual, via de regra, mantinham total controle e obediência.
Não aceitam que o adolescente faça algumas coisas fora do modelo aprendido. O que tentam fazer é encaixá-lo no modelo do mundo adulto, conhecido por eles, como se fosse o melhor único e o melhor modelo de vida. Não sabemos se os adultos vivem da melhor forma. E o adolescente percebe isso e se rebela. Entre os animais ocorre algo muito semelhante.O animal jovem dificilmente se submete. A energia vital é muito forte e há uma rebeldia espontânea.
O adolescente quer fazer as coisas a seu modo, inovar, criar. Depois até pode retornar ao modelo familiar, mas após experimentar novas maneiras. Muitos deles chegam a dizer:
“Exijo o direito de quebrar a cara...”.
O adolescente deseja essa situação, muito semelhante ao que ocorre nas provas dos rituais de passagem da infância para a vida adulta, descritos pela antropologia.
Reivindicam o direito de errar, o que na realidade faz parte do processo de aprendizagem .
Não existem muitas coisas a fazer, porque consideramos esse comportamento, basicamente, saudável, e a insatisfação dos pais é inútil . Inútil porque exigem, teimam, e não conseguem nada.
Quase todo o discurso do adolescente desiquilibra a dinâmica familiar, mesmo porque muitos pais estão colocando em dúvida muitas das suas convicções.
Para que os adolescentes possam atravessar essa fase de forma mais natural, encontrando saídas criativas, e portanto saudáveis, é necessário manter um canal de comunicação aberto para o diálogo permanente, sem obtrução . E isso não se consegue de um dia para o outro.
Precisamos acompanhar de perto o crescimento e o desenvolvimento do jovem, só intervindo quando percebemos que algo não vai bem, da mesma forma que fazemos com a saúde orgânica. O ser humano precisa ser atendido de forma integral, não só nas suas necessidades físicas, mas também nas suas necessidades psíquicas e sociais. O papel dos pais é estar , “com eles” e não, “ contra eles”, falar. ” com eles” e não “deles” . Devem estar disponíveis, porém respeitando o seu espaço e a luta pela busca de independência e autosuficiência . Não devemos assumir posturas rígidas, devemos acompanhá-los, lado a lado , nem atrás , porque podemos não conseguir acompanhá-los, nem à frente , porque podemos não ser um bom guia . Devemos treinar a possibilidade de sermos considerados dispensáveis, muitas vezes. Porém, devemos permanecer disponíveis, sempre que um deles necessitar e pedir ajuda. Os filhos não são propriedade dos pais. Entretanto, não é fácil simbolizar um porto seguro onde possam recorrer sempre que sintam-se em perigo. Um refúgio para as suas decepões e desalentos.
Um ouvido carinhoso, para podermos escutar suas idéias, verificar como pensam, como julgam, muitas vezes diferente da nossa maneira de ser, e aceitando-os como realmente são.
Os distúrbios de conduta , ocorrem em função de uma dinâmica familirar comprometida, como um sintoma , onde o adolescente denuncia com o seu comportamento uma angústia que não está conseguindo resolver.
Na administração dos conflitos entre pais e filhos adolescentes, no dia a dia, uma sugestão possível, seria propor uma negociação , dividir, repassar o problema a ser discutido, colocando-se como parte da dificuldade, e não no papel de dono da verdade, ou na posição descrita por um adolescente : . Professor de Deus.
Admitir que estão ambos estão diante de uma dificuldade de compreensão. Afinal de contas, supostamente, os adultos são os pais, e destes espera-se um comportamento com maior equilíbrio e bom senso. Não podemos desejar que o adolescente, no meio de sua confusão, busque uma saída equilibrada. O mais razoável é que a iniciativa dessa busca de negociação parta dos pais.
Poderiam dizer:
- Veja, eu estou sempre te aporrinhando, e você também me aporrinha. E esta situação já está cansativa demais. Não podíamos encontrar uma forma de relacionamento melhor?
Ser pai, ser mãe é a missão e a arte de nos tornarmos dispensáveis e permanecermos disponíveis.
Gilka Correia é Filósofa, Professora universitária, Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e Hospitalar, Sexóloga e Mestre em Educação
Contatos: (41) 352-5107 – e-mail gilka.correia@terra.com.br
Curitiba-PR
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