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Quando alguém se percebe sexualmente diferente...

As várias linhas da psicologia divergem em vários pontos, mas concordam em pelo menos um assunto... O que á a sexualidade. Denominada de diferentes maneiras, libido, pulsão, energia, força... A sexualidade é entendida como "algo" que surge dentro de todo organismo normal e se manifesta desde o nascimento até a morte. Numa linha ascendente, constrói-se de maneira singular no processo de desenvolvimento e história de vida de cada um. Expressa de forma diferente nas várias faixas etárias, mas está sempre presente. Na puberdade, na grande maioria dos casos, surge o interesse pelo outro sexo e a vivência de uma relação de casal, com o objetivo de construir um laço afetivo-sexual e planejar uma família e filhos. Sabemos também, que a sexualidade é, fundamentalmente cultural, isto é, manifesta-se de forma diferente, em diferentes locais e épocas.

Entretanto, eventos traumáticos no processo de desenvolvimento da sexualidade, ocorridos na mais tenra infância, podem determinar uma parada desse processo normal, fazendo com a libido fique retida num estágio primitivo ou tome um caminho paralelo no seu desenvolvimento: surgem os desvios sexuais ou parafilias. É difícil tentar formular uma definição operacional única de parafilia. Às vezes, um padrão de comportamento desviante torna-se regular, fixa e única forma de expressão da sexualidade. Outras vezes, pode incorporar fantasias na imaginação masturbatória ou pensar na fantasia estímulo durante a atividade sexual com o parceiro. Além disso, pela prática em consultório, sabemos que a maioria das pessoas tem fantasias sexuais, eventualmente, divergentes do comportamento normativo culturalmente aceito. Todas essas pessoas podem ser sexualmente funcionais ou disfuncionais. Também, várias parafilias podem coexistir nu mesma pessoa. O impulso para as parafilias pode dissipar-se ao longo da vida por razões que não conhecemos.

Algumas parafilias são atos particulares, como o exibicionismo, o "voyeurismo" e os telefonemas obscenos. O exibicionismo é a exposição deliberada dos órgãos sexuais em condições inadequadas, com a intenção de provocar uma resposta no observador. O "voyeur" obtém satisfação sexual observando, geralmente de maneira clandestina, outras pessoas envolvidas em atividade sexual. As pessoas que utilizam o telefone para conversas obscenas o fazem na segurança da sua casa, muitas vezes, no anonimato, o que evita uma confrontação e uma interação com a outra pessoa. No sadomasoquismo há uma dificuldade de definir as fronteiras, pois apertar, morder ou arranhar, facilitam a responsividade sexual. Em casos extremos, o sadismo deriva a estimulação sexual na prática de infligir dor e sofrimento ao parceiro, e a masoquista deriva a excitação sexual para sofrer em si mesmo o infligimento de dor. Entretanto, se se forma um casal sadomasoquista, nenhum dos parceiros sente-se incomodado e como se complementam, não buscam ajuda para seu comportamento. O transvestismo é a condição na qual, geralmente, o homem em situação de privacidade, sente-se excitado sexualmente ao vestir roupas íntimas femininas. Geralmente, começa a utilizar roupas femininas na infância ou na adolescência, embora não exiba comportamento afeminado. Existem parafilias relacionadas com objetos particulares, como o fetichismo, em que ocorre a resposta sexual a um objeto ou parte do corpo, que não é essencialmente sexual. A pedofilia (amor de crianças) é a necessidade de contato sexual com crianças e pré-adolescente. Freqüentemente são casados e têm dificuldades de funcionamento sexual com um parceiro adulto. A zoofilia envolve contatos sexual costumeiro com animais, sendo conhecida em zonas rurais, e a necrofilia envolve o contato sexual com um cadáver, mais rara e sem maiores estudos.

As pessoas vivem um intenso sofrimento psíquico, porque se percebem diferentes, não compreendem e não se sentem com coragem de buscar auxílio. O seu comportamento sexual é o seu terrível segredo. Quando não envolvem outras pessoas nas suas práticas, podem passar uma vida toda com uma vida paralela. Podem esconder de todos, menos de si mesmos... Poucos buscam uma relação de ajuda. A situação vem à tona quando são descobertos no seu comportamento e nas suas práticas.

Discutir o espectro de comportamentos sexuais sem fazer juízos de valor ou rotular esses comportamentos é um assunto complexo. Nas diversas culturas é grande a variedade de formas de expressão do erotismo humano. Definir o que é sexualmente normal torna-se problemático.

A literatura existente é escassa e não existem estatísticas confiáveis, pelas situações inusitadas que envolvem. Quanto mais a pessoa percebe que o seu comportamento foge dos padrões mais comuns, maior é o sigilo, a ansiedade e a culpa. Quanto mais esses comportamentos se desviam dos padrões culturais aceitos pelo contexto social, menos provável é que a pessoa busque ajuda profissional para a compreensão das suas dificuldades. Tomamos conhecimento da população clínica que busca tratamento e nada sabemos daquela que não o faz. A busca de tratamento geralmente ocorre por encaminhamento, quando há uma situação de constrangimento flagrante e inevitável, que viola a lei ou as normas sociais de um segmento profissional. Em cada caso de parafilia devemos fazer uma profunda reflexão ética e filosófica, questionando-nos sobre a possível extensão de um reflexo do determinismo biopsicossocial e a da questão da extensão do livre arbítrio.

Money acredita que o aspecto patognomônico de todas as parafilias é a dependência da excitação sexual de uma fantasia diferente daquelas envolvendo apenas um parceiro consentidor do sexo oposto.

Stoller definiu o desvio sexual como um “uns métodos preferidos, habituais, compulsivos de alcançar satisfação sexual diversamente do intercurso genital entre homem e mulher”.

Money também distingue entre parafilias benignas e patológicas, pela utilização do conceito de mútuo consentimento. Entretanto, podem resultar danos físicos, mesmo em situações em que o consentimento está presente. Podem também ocorrer danos físicos em casos bizarros de zoofilia, onde não pode haver consentimento. (1)

A literatura é quase inexistente e a clínica apenas pode realizar estudos sobre um segmento restrito que busca tratamento. Entretanto, a multiplicidade de material e serviços pornográficos oferecidos à população em geral, envolvendo todas as parafilias e o volume do comércio sub-reptício, nos leva a inferir que, pela lei de mercado, não se sustentariam se não houvesse quem os procurasse.

Sabemos que existe extensa literatura pornográfica e "sites" na Internet dedicados a várias parafilias, bem como revistas, catálogos de venda de equipamentos, "sexshops" e clubes abastecidos por extensa clientela. Sabendo que para a busca de um tratamento clínico é fundamental haver uma demanda da pessoa que sofre, podemos concluir que a população afetada deve ser muito maior do que aquela que chega à nossa clínica, buscando compreensão e tratamento. Talvez essa situação seja o reflexo de uma sociedade extremamente erotizada, que por profundas insatisfações existencias, falta de sentido e significado de vida, busca o prazer sexual em comportamentos além dos padrões aceitos culturalmente, como busca de maior liberalidade e com a ilusão de obter sempre um ganho a mais. Temos que Ter em mente que tratamos das tênues fronteiras que diferencial o normal do anormal, e antes de reprimir uma prática seria mais proveitoso tentar compreender e pontuar as motivações subjetivas e as conseqüências sociais e éticas desses comportamentos.

Gilka Correia é Psicóloga Clínica, Especialista em Sexualidade Humana, oferece Orientação e Educação Sexual para crianças, adolescentes, pais e professores e Psicoterapia para disfunções sexuais individual ou para casais. email.: gilka.correia@terra.com.br

Agradecimentos à Psicóloga Gilka Correia por permitir a reprodução dos seus artigos científicos no site Atlaspsico. Obrigado!
Márcio Roberto Regis - Webmaster

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