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Para as mulheres que procuram o próprio caminho
por Gilka Correia CRP-08-755

Proponho a acompanharem-me numa reflexão sobra a condição da mulher no mundo atual. O filósofo francês René Descartes (1596-1650), na Carta-prefácio aos Princípios da sua obra Discurso do Método , afirma: “Viver sem filosofar é como ter os olhos fechados sem jamais fazer esforço para abri-los; e o prazer de ver todas as coisas que nossa vista descobre não é comparável à satisfação que dá o conhecimento daquelas que se encontram pela filosofia; e seu estudo é mais necessário para regular nossos costumes e nos conduzir na vida que o uso dos nossos olhos para guiar nossos passos”. Na nossa época, com a ausência do gosto pelo estudo da filosofia, sem o conhecimento dos seus mecanismos e história, recusa-se também a atitude filosófica, contrariando uma verdade pouco levada a sério : “ Jamais se delega a função de pensar ”(Alain). Partindo dessas premissas, convido a todas as mulheres, independente de idade, e também os homens interessados, a envolverem-se nos caminhos difíceis e sinuosos da reflexão filosófica. Não esperem pensamentos elaborados, perfeitos, sofisticados, sensacionalistas, ou lições e receitas a serem aprendidas, da forma como são extensamente fornecidas pela ditadura da mídia, principalmente nas revistas “ditas” femininas. Entretanto, convido a acompanharem-me àquelas mulheres, que estiverem interessadas mesmo, e forem capazes de “dar o pulo necessário” para buscar o auto-conhecimento , e transcender e superar o modo de pensar sobre a essência, o conceito e o papel da mulher no mundo atual.

Inicio afirmando que como ser pensante e coerente em não delegar a função de pensar , sou mulher por definição genética, e por gênero, representante do sexo feminino. Nada contra os homens, com certeza, muito pelo contrário, concordo plenamente com a afirmação do Gênesis, quando diz: “Não é bom que o homem permaneça só”. Para aproximar-me dos problemas fundamentais a serem vistos na vivência do cotidiano da mulher, proponho alguns questionamentos norteadores: O que significa ser mulher no mundo atual? Qual a sua posição e o seu papel na contexto social? Quais as referências de comportamento feminino que estamos passando para a nova geração? Quem educa as meninas e as adolescentes? Que idéias, valores e modelos estão sendo transmitidos?

Voltando a filosofar, Heidegger nos ensina que “ser” é a maneira como algo se torna presente, manifesto, entendido, percebido, compreendido , e finalmente conhecido pelo ser humano. Para o “ser-aí”, não são noções abstratas, mas as características fundamentais que possibilitam as várias maneiras de algo se tornar manifesto na existência. A realidade é o contexto de significados e referências com que nos relacionamos.

Vamos tornar transparente o fenômeno do cotidiano da mulher atual? Seguindo a visão ontológica de Heidegger, é importante notar que a origem que possibilita as inúmeras maneiras de algo ser concretizado e realizado, é, também e ao mesmo tempo, a origem da possibilidade do “sim ou do “não”. Na ontologia fundamental de Heidegger, o “não” nada tem a ver com o aniquilamento, o vazio, o niilismo. Ao contrário, o “não” é indispensável ao viver humano. A mulher, então, pode e deve dizer “não” aos modismos impostos.

Outra reflexão nos leva a pensar no contexto em que vive a mulher atual, em relação ao tempo-espaço. Posso sentir-me muito próximo de alguém quando penso nele, e muito afastado de uma pessoa ou de um objeto que pode estar ao meu lado. Através do corpo, de meus gestos, posso me aproximar ou me afastar dos outros, posso achar ou não meu lugar no meu ambiente. Refletindo ou rezando, posso ficar, ou não, próximo ao divino.

Todas essas circunstâncias são possibilidades que deveriam estar presentes no valor e no respeito atribuído ao seu próprio corpo, e no posicionamento nos envolvimentos com os outros. Esse parâmetro é fundamental para o exercício do livre arbítrio.

O caminho que convidamos a percorrer propõe recuperar o esquecido no conceito e na essência do “ser mulher”, enxergar novamente o simples, que em nossa época, através do embotamento provocado pelo universo tecnológico, tornou-se uma tarefa muito difícil.

É fundamental a mulher atual se conhecer e se relacionar intimamente consigo mesmo, e elaborar um projeto de vida significativo. Buscar clarificar e tornar transparente uma visão de mundo e uma proposta de vivência como ser feminino, questionando-se sempre: O que desejo da vida? O que estou fazendo comigo? Essas referências irão fundamentar o seu modo de relaciona-se e viver no social, e o planejamento de caminhos e estratégias a serem seguidos tanto na vida pessoal, como na vida afetiva, familiar e profissional. Essa conscientização tornará mais fácil e específico, o “como” me relaciono, atuo, penso, sinto, enfim vivo com os outros meus semelhantes. É importante refletir que, quando usamos o “eu também”, não necessariamente reporto-me à imitação da outra, à identificação com a outra, mas principalmente, ao “participar e compartilhar das mesmas referências”, muitas vezes sem reflexão sobre seu significado.

O contexto dos significados e das referências com as quais a mulher vem se relacionando na atualidade, representa um massacre e determina uma ditadura, onde "cada uma é a outra" e "ninguém é si mesmo" . Quando afirmam: “Todas nós, todas fazem... todas usam..., estão se referindo a um ente abstrato e descomprometido – ninguém . Esse “ ninguém” fornece respostas à questões do “eu”.

A massificação, a mediocridade e o descartável controlam de imediato e determinam a maneira pela qual a mulher “deve ser” e “deve estar” no mundo. As interpretações acabam parecendo corretas porque são insensíveis a toda diferença de nível . Fica esquecida a condição humana em que cada uma é um ser singular e único, com valores únicos, além do modelo de corpo físico que deve apresentar ao público.

O novo modelo de mulher apresentado pelo mundo circundante, principalmente pela mídia, é tão envolvente que é absorvido por todas, incluindo também os homens. Os estereótipos da nova mulher alicerçam a sua auto-estima e prescrevem o modo de ser mulher. No bojo dessa cilada sociocultural estão contidos: excessos de informações científicas sobre saúde, beleza, juventude, sexualidade; um modelo único de corpo; um manual de comportamento afetivo e sexual, com a exigência de orgasmos múltiplos e seqüenciais; decálogos, do tipo “faça” e “não faça”, sobre hábitos e atitudes de igualdade com os homens nos relacionamentos afetivos e sexuais. Questiono: Se antes da revolução feminina dos costumes sócio-sexuais a sociedade determinava os comportamentos desejáveis, na atualidade a mulher encontra-se pressionada pelos estereótipos, e na maioria das vezes, “perdida”.

Em tempos de carnaval, na tentativa atrair turistas , é feita uma convocação ao mundo sob a égide do corpo da mulher brasileira, sugerindo uma “ coisificação e uma disponibilidade sexual” com o culto do maior fetiche nacional: a bunda da brasileira . As revistas aí estão para a comprovar a exposição da imagem da mulher, via corpo, como se ela não tivesse mais nada para apresentar. E o que é lamentável, sem que ela se dê conta do conceito de mulher que representa. Falta senso crítico? Ou ela tem a necessidade de fantasiar-se, desnudar-se, sambar e “garantir o espetáculo ”...

Chegamos à conclusão que, após as alardeadas conquistas femininas dos anos sessenta e setenta, quando a mulher buscou a liberação do comportamento e abandonou a repressão, hoje , ela se encontra em situação desconfortável, e a maioria delas, sem ter consciência, vivenciam uma outra forma de repressão. Angustiam-se e frustram-se, tendo apenas como opção, perseguir o mito do novo modelo de mulher, ou amargar as culpas e frustrações de não conseguí-lo. Que liberdade é essa?

Vamos fazer uma nova revolução? Pois, quem não age, não é.

Gilka Correia (CRP-08-755) é Filósofa, Professora universitária, Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica e Hospitalar, Sexóloga e Mestre em Educação
e-mail gilka.correia@terra.com.br
Curitiba-PR


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