| A questão metodológica das pesquisas quantitativas no que se refere à coleta de dados sobre temas tabus
17 novembro 2006
por Marcel de Almeida Freitas
Antropólogo, Mestre em Psicologia Social, Doutorando em Educação. marleoni@yahoo.com.br
1. Introdução
O intuito deste trabalho é apontar de modo prático, ou seja, através da realização de uma pesquisa quantitativa de campo, como uma certa metodologia interfere no tipo e na quantidade de dados que irão ser coletados, isto é, temáticas de certa forma estigmatizadas socialmente necessitam de técnicas e métodos de coleta diferenciados/específicos pois, do contrário, corre-se o risco de se adquirir dados irreais, que retratam apenas o ideal/aprovado socialmente. Concordando-se com NOGUEIRA et al (2003:88), “não há um modo ‘correto’ de fazer investigação, o método deve servir à questão”.
2. Metodologia
Parte-se do pressuposto de que a abordagem e a coleta de dados devem ser apropriadas de acordo com a temática em questão, ou seja, uma pesquisa sobre ‘sabão em pó’ pode ser realizada pela técnica da entrevista fechada, diretiva e face-a-face, visto que este tema não é motivo de constrangimento para ninguém em qualquer sociedade ocidental e urbana. Entretanto, ao se tratar de questões como racismo, aborto, homossexualidade, uso de drogas, temas que em nossa sociedade são ainda marginalizados e cercados de tabu, estratégias apropriadas de coleta de dados devem ser criadas, pois se realizadas da maneira convencional podem gerar informações ilusórias, numericamente aquém da realidade.
Para comprovação desse pressuposto, foi elaborado um questionário fechado que pudesse ser auto-aplicável, sendo que a pessoa que respondia à pesquisa apenas assinalava as respostas correspondentes numa ‘folha’ à parte, anonimamente, e depois a depositava numa ‘urna’ lacrada. Visto que o questionário não possuía nenhuma forma de identificação – nem mesmo era perguntado o curso do aluno – foram usadas três urnas: uma para cada área de conhecimento (Exatas, Humanas e Biológicas). Assim, quando era atingido o número amostral determinado para aquela área, a urna era aberta.
O estudo foi transversal, a partir do número de estudantes de graduação e pós-graduação regularmente matriculados na Universidade Federal de Minas Gerais no 1o semestre do ano letivo de 2001 definido no plano amostral. Por este motivo os resultados desta amostra podem ser estendidos para toda a população de alunos do sexo masculino da UFMG, sendo que a margem de erro é de três pontos percentuais. Foram entrevistados 200 alunos da área de Exatas, 202 alunos de Humanas e 198 alunos das áreas Biológicas/saúde, num montante de 600 alunos em toda a UFMG.
O método utilizado para escolher os alunos que compuseram a amostra de cada curso foi o de amostragem por conglomerado (aqui foi a área de conhecimento) estratificada, onde o número de alunos escolhidos em cada estrato (curso) é proporcional ao número total de alunos no conglomerado. Assim, os cursos da UFMG, inclusive os de pós-graduação, foram agrupados em três grandes áreas temáticas: Biológicas, Humanas e Exatas. O número total de alunos em cada um destes estratos foi conseguido junto ao Departamento de Registro e Controle Acadêmico, tendo por base o 1o semestre do ano de 2001. Somente foram solicitados os números referentes aos alunos regularmente matriculados em duas ou mais disciplinas, ou seja, alunos de matérias isoladas (de outras faculdades) ou em continuação de estudos (já graduados) não foram considerados.
A forma de abordagem, como dito anteriormente, foi a mais ‘discreta’ possível e a própria aleatoriedade desta forma de seleção/abordagem mesclou os alunos no que diz respeito aos períodos. Geralmente a pessoa se encontrava na biblioteca, cantina ou sala de estudos – sozinha – ou no máximo com um colega do sexo masculino que também pudesse responder à pesquisa ao mesmo tempo. Este cuidado, que superficialmente pode parecer inútil, foi tomado para que não acontecesse a seguinte situação que poderia alterar drasticamente os dados: enquanto um aluno respondia o outro ‘participava’, ironizando e fazendo anedotas sobre suas respostas; além disso, iria ter ciência de algo íntimo da vida do colega, sua sexualidade.
O questionário foi construído a partir de uma pesquisa semelhante realizada com alunas de graduação na Universidade de São Paulo (USP), sendo que aquele trabalho foi qualitativo, ou seja, realizou-se 20 entrevistas em profundidade face-a-face que interrogavam sobre práticas, preferências e interditos sexuais de pessoas do sexo feminino daquela instituição de ensino (VIEIRA, 1998). Resolveu-se colocar no presente questionário, em forma de questões fechadas, as respostas e práticas sexuais mais recorrentes entre aquelas mulheres entrevistadas na USP. Desta feita, o questionário foi elaborado para ser um instrumento de coleta auto-aplicável, com perguntas fáceis de responder, sem necessidade de consulta à pessoa do entrevistador – que apenas entregava o ‘gabarito’ e a urna.
No que se refere à interação com os alunos algumas expectativas não foram reforçadas e algumas surpresas foram encontradas: praticamente não houve nenhuma recusa em responder à pesquisa por parte dos alunos da área de Biológicas, sendo a imensa maioria extremamente cordial e até mesmo curiosa em saber o resultado estatístico do trabalho. Neste ponto positivo a ‘surpresa’ os que mais se destacaram foram os alunos do curso de Medicina, que na biblioteca ou no corredor da respectiva faculdade, mesmo atarefados, com livros ou saindo da aula, se dispuseram educadamente a participar da enquete.
Enfim, de modo geral, todos aqueles que lidam com a saúde humana foram extremamente acessíveis e cordiais. A surpresa ‘negativa’ ficou por conta dos alunos de graduação do curso de Psicologia, visto que alguns se recusaram a responder sem nem mesmo tomar conhecimento do que se tratava. Na área de Humanas os mais receptivos foram os alunos de Comunicação Social, como esperado. Com relação aos cursos de Exatas, houve algumas recusas – de certa forma esperadas caso se considere o estereótipo que apregoa que alunos de ciências exatas são mais introvertidos – sobretudo de alunos do curso de Engenharia que já estavam no ciclo profissional, sendo que os mais acessíveis foram os alunos de Computação.
3. Discussão dos Dados
Para efeito de análise, será convencionado, neste texto, que quanto mais próxima estiver uma resposta, aliás, um conjunto estatístico, da ‘norma’ social vigente, mais tradicional será aquele conglomerado no que concerne ao comportamento sexual e mais conservador será no que concerne às atitudes. Entretanto não se julgará que estar próximo ou afastado dos padrões sociais é algo ‘bom’ ou ‘ruim’, mesmo porque, como aponta a Antropologia, os valores sociais variam no tempo e no espaço (FROST, 1976).
3.1. Nudez Masculinoa
No que diz respeito à predisposição ou, no mínimo, ao interesse em posar nu para uma revista observou-se que os alunos da área de Biológicas se encontram mais abertos a este tipo de experiência (38,89%), ao contrário de seus colegas da área de Exatas: apenas 26,5% sairiam nus numa revista. Com relação a UFMG, a cifra média de 33% foi surpreendente, pois se acreditava que este número seria menor. Quiçá isso seja fruto da influência da mídia que, em alguma medida, vem atingindo a vaidade masculina e a questão financeira (ao divulgar que os homens famosos lucram alto com estes trabalhos). Pensa-se também que os que responderam positivamente foram incitados para isso pela ‘demanda’ do desejo feminino, já que, conforme constatou VIEIRA (1998), existe crescente interesse feminino por revistas com homens nus.
3.2. Preservativo
Junto aos estudantes da UFMG os que menos utilizam camisinha em suas relações sexuais são, curiosamente, os alunos das Biológicas (9,6%); apesar de não ter sido perguntado na pesquisa, muitos disseram espontaneamente que não usam porque se relacionam com uma pessoa apenas, ou porque são casados. Os que disseram ‘sempre’, em maior porcentagem, foram os alunos de Exatas: 64% deles. Mesmo assim foi considerada baixa essa cifra, bem como a média da universidade em geral, 60%, tendo em vista as DSTs (Doenças Sexualmente transmissíveis) e principalmente a epidemia de Aids. Pelo fato de serem pessoas com alto grau de informações, conhecimentos e ‘cultura’ em geral, se supôs que a porcentagem dos que respondessem “uso preservativo em todas as relações” estaria girando em torno de 80%.
3.3. Sexo Anal – Teoria
Nesta prática sexual pensou-se que seria encontrado um percentual maior, tanto no que diz respeito aos que já praticaram quanto entre aqueles que nunca fizeram mas têm vontade, porque a mídia têm insuflado o imaginário coletivo em relação à ‘preferência nacional’ do homem brasileiro (nádegas femininas) tanto no que diz respeito à revista eróticas (“Playboy”, “Sexy”), quanto a filmes eróticos. Nas Exatas e Biológicas o número de alunos que nunca fizeram mas gostariam (34% contra 33%) foi ligeiramente superior ao número dos que já fizeram (35,86% contra 34,89%, respectivamente); apenas nas Humanas o número de alunos que já teve esta experiência (38,12%) superou em relativa medida o número dos que gostariam mas nunca tiveram a oportunidade (27,73%).
No total de alunos da UFMG, 35% já fizeram sexo anal, mas provavelmente a percentualidade dos que não fizeram mas gostariam (33%) foi inferior à realidade, tendo em vista outras pesquisas sobre sexualidade com outros públicos e a influência maciça da mídia e até mesmo dos filmes de sexo explícito. Assim, talvez alguns ficaram constrangidos em refletir sobre este desejo sexual, tamanha a internalização de que se trata de algo que tangencia o homoerotismo e de que é algo proibido/pecaminoso e, por estes motivos, mesmo respondendo sozinhos, muitos não admitiriam para si mesmo que apreciam tal forma de relação sexual.
3.4. Prática Sexual Preferida
As estatísticas deste tópico são coerentes com as da questão anterior: o maior percentual dos que preferem a penetração anal está entre os alunos das Ciências Humanas (17,83%) e a menor porcentagem entre os alunos de Exatas (13,5%). No total da UFMG, 16% preferem este tipo de relação sexual. Conjetura-se que vários motivos podem suscitar isso: o fato de ânus ser mais estreito que a vagina – causando maior prazer físico ao homem, e o prazer psicológico advindo da dominação (masculina) e da subordinação (feminina) que envolve esta prática. Outros autores (FOGEL, 1989, por exemplo) mais polêmicos, também aventam como possibilidade um homoerotismo sutil e inconsciente: o homem estaria realizando, numa prática heterossexual, algo típico da homossexualidade masculina.
3.5. Sexo com outro homem
Ao se analisar os dados deste tópico fica-se ainda mais convencido de que, em se tratando de determinadas temáticas, a metodologia e as técnicas de investigação devem ser específicas: caso fosse uma pesquisa diretiva face-a-face, certamente não se encontraria 11% de homens admitindo que já se relacionaram sexualmente com outro homem e 4% dizendo que nunca fizeram, todavia gostariam. Talvez estas cifras cairiam pela metade. Entre os campos de conhecimento, o de Ciências Exatas foi onde houve maior percentual de alunos que já viveram esta experiência, 13,5%, e a área de Humanas foi onde foi encontrado o menor percentual, apenas 8,43%. É interessante ressaltar também que a grande maioria dos que já tiveram experiência sexual com outro homem declarou terem sido os ‘ativos’, em outros termos, os que penetraram o parceiro.
3.6. Idade
Os dados aqui obtidos condizem com outras pesquisas já realizadas, como por exemplo, o levantamento realizado pela Fundação Universitária Mendes Pimentel anualmente. 85,63% dos estudantes dos cursos de Humanas têm até 26 anos; 84% dos estudantes de Exatas e 83,34% dos alunos de Biológicas estão nesta faixa de idade. No geral da UFMG, 40% têm até 21 anos. Com estes números, semelhantes aos de outras pesquisas realizadas pelo modo tradicional, o argumento central deste artigo é corroborado: como não há necessidade de mentir, os dados referentes à faixa etária não variam caso a pesquisa seja pela auto-resposta ou venha na forma de um questionário face a face, portanto, essa questão, a princípio sem nexo com o tema sexual, serviu apenas de controle para testar a eficácia do questionário anônimo auto-aplicável como um todo.
3.7. Sexo a três
De acordo com a pesquisa realizada por VIEIRA (1998), está é uma fantasia feminina recorrente (dois homens e uma mulher) e quando se contrastou com a possibilidade de os estudantes homens da UFMG virem a participar desta experiência, encontrou-se o seguinte: 12,63% dos estudantes de Biológicas já viveram esta experiência contra apenas 8% nas Exatas – o menor percentual. Quando se analisou a resposta “não mas gostaria”, foi achado 30% entre os alunos das Exatas, contra 16,37% das Humanas – a porcentagem mais baixa.
Na UFMG como um todo se tem 10% que já tiveram esta experiência sexual e 22% que gostariam, mas nunca viveram. Supõe-se que, se fosse feita a pergunta contraria, ou seja, ele mais duas mulheres estes números estariam na casa dos 70% (conforme estudo qualitativo de FOGEL, 1989) e por estas respostas deduz-se um certo resquício de machismo e/ou insegurança masculina: receio pelo desempenho do outro ser melhor, de o pênis do outro ser maior, de algum contato homossexual, temor de o outro homem desejar penetrá-lo, etc.
3.8. Interdições e tabus
Neste aspecto foram encontradas respostas interessantes, sobretudo se comparadas com os tópicos anteriores; a prática mais rejeitada pelos estudantes é ser passivo sexualmente com outro homem – a média foi 80% dizendo que não gostariam de ter esta experiência de modo algum. Em seguida vem a opção ser ativo sexualmente com outro homem, 4%. Se somadas, a homossexualidade masculina tem 84% de rejeição como prática sexual. A alternativa menos rejeitada foi a parceira introduzir o dedo no ânus enquanto faz sexo oral, prática que, segundo a pesquisa realizada com alunas da USP, é muito comum (VIEIRA, 1998). 9% disseram que experimentariam qualquer prática, dependendo da ocasião. Os alunos que mais se mostraram abertos a estas experiências foram os de Exatas, 9,5% assinalaram que experimentariam qualquer das três opções anteriores. Os mais fechados foram os de Humanas, apenas 6,94% disseram que experimentariam qualquer destas práticas dependendo da oportunidade/situação.
3.9. Preferência Nacional Feminina
A mídia se preocupa muito em divulgar os gostos e preferências sexuais masculinos, mas de certa forma os desejos e fetiches sexuais femininos são pouco falados; na pesquisa realizada por VIEIRA (1998) as alunas espontaneamente disseram apreciar homens peludos, e um detalhe apareceu, e que raríssimas vezes é colocado pelos meios de comunicação: muitas disseram achar mais másculo/atraente as nádegas masculinas. Assim, procurou-se verificar se os homens de certa forma têm abertura para que suas parceiras ou amigas falem isso com eles, ou será que esta preferência fica apenas nos ‘círculos’ femininos. Foi interessante constatar que os dados coletados na UFMG (72% acham que as mulheres preferem o ‘bumbum’) casam com os dados coletados na USP, ou seja, grande parte dos alunos já tinha ‘desconfiança’ de que as mulheres apreciam esta parte do corpo masculino.
Provavelmente isso se deve a elogios femininos indiretos, fato que os levam a deduzir isso e, mais raramente, o fato de algumas mais ‘ousadas’ falarem abertamente esta preferência. Por outro lado, os outros 28% podem ter sido influenciados pelas fotos publicitárias ou mesmo pela divulgação de revistas de nu masculino ou clubes de stripe-tease masculino, pois acreditam que as mulheres preferem braços e peitos musculosos. O grupo que mais ‘acertou’ (se aproximou dos dados coletados pela doutoranda da USP) foi o de Humanas (74,26%), e o que mais ‘errou’ foi o de Biológicas (69,7%).
3.10. Sexo Anal – Prática
Esta foi uma questão formulada para ‘testar’ a coerência em relação à pergunta comentada no item 3.3: uma coisa é a opinião em relação ao sexo anal versus o vaginal, que pode expressar um pensamento politicamente correto, patrulhado; outra coisa é o indivíduo colocado frente a uma situação real. Os alunos que mais responderam que achariam ótimo uma mulher que permitisse somente esta prática sexual foram os de Biológicas (16,67%) e os que menos responderam ‘ótimo’ foram os de Exatas: 8%. É curioso constatar que em todos os grupos a porcentagem daqueles que responderam ‘detestaria’ foi menor (ainda que pouco) à dos que responderam ótimo. Porém, quando comparamos as respostas ‘bom’ e ‘ruim’ o grupo que apresentou maior distanciamento foi o de Humanas: 49% e 28,72%, respectivamente. Só o grupo de Exatas teve porcentagem maior na opção ‘ruim’ em relação à resposta ‘bom’: 43,5% contra 41%, respectivamente.
3.11. Posição sexual: posição social?
Como disse certa vez Camille PAGLIA (1993), sexo e poder andam de braços dados; assim sendo, inúmeras práticas e comportamentos sexuais têm sua fonte de sedução não no âmbito biológico, mas no sócio-psicológico e até mesmo no político. A popstar Madonna também já havia se referido a isso numa entrevista dizendo que “sexo não é amor, sexo é poder” (GREENHALGH, 2001). Logo, constatou-se pelos dados desta pesquisa, que certo patriarcalismo ainda habita o erotismo dos estudantes da UFMG, visto que 48% acham mais estimulante sexualmente quando a mulher fica na posição ‘de quatro’, posição essa que explicitamente remete à conotação de algo animalesco, a uma analogia inconsciente entre cavaleiro (dominador) e montaria (dominado). É interessante verificar que a segunda posição mais escolhida foi a mulher por cima, mas ainda assim com uma cifra bem distante da primeira: somente 28%. Os estudantes que mais preferem a posição ‘de quatro’ são os da área de Humanas, 53,47%, e os que menos preferem são os de Biológicas, com 44,95%.
3.12. Racismo e imaginário sexual
Neste ponto os resultados eram de certo modo esperados: as mulheres da raça negra (pretas e mulatas) foram as menos apontadas como alvo de desejo sexual entre os estudantes (só 10%); porém, um percentual chamou a atenção por sua baixa expressividade neste estudo, diferentemente de enquetes realizadas pela televisão ou por publicações a loura estereotipada – seios grandes, cabelos compridos e platinados, pele bronzeada e corpo ‘talhado’ em academia – foi pouco apontada como objeto de erotismo, apenas 23% contra 67% de estudantes que apontaram as ‘morenas’ (pardas e mestiças em geral) como as mulheres mais desejadas. Neste item fez-se questão de colocar entre as morenas tiradas da mídia brasileira aqueles exemplos que tipicamente são atribuídos como sendo a típica ‘raça’ brasileira: que fossem a mistura de brancos, negros e índios. Os estudantes que mais escolheram as mulatas e negras foram os de Biológicas, e os que menos escolheram foram os de Humanas.
4. Conclusões
Segundo o psicanalista e sexólogo Flávio GIKOVATE (2001) somente hoje mulheres e homens estão prontos a viver as experiências libertárias promovidas nos anos 1960; segundo ele, houve um divisor de águas nas últimas três décadas: o ‘ficar’ que os jovens inventaram no final dos anos 80 revolucionou ainda mais o cenário das relações entre os sexos. Além disso, acredita que, apesar dos equívocos, o trabalho de Shere Hite inovou em alguma medida, ao propor a existência do orgasmo clitoriano – e que este não era uma afronta à maturidade sexual feminina, como propusera Freud. Ademais, atualmente vivemos uma exacerbação do exibicionismo, o que é demonstrado pelo surgimento de revistas onde o homem expõe sua nudez e pela eleição de personalidades como Pamela Anderson no Estados Unidos e Suzana Alves (Tiazinha) no Brasil como símbolos sexuais e de beleza.
O desejo nunca foi tão suscitado pelos apelos visuais como agora: na televisão, no cinema, nas revistas, na internet. Nesta pesquisa não foi abordado tal fato, mas é permitido deduzí-lo dos dados: o machismo perdeu um antigo sustentáculo – a estereotipada iniciação sexual dos homens. Hoje, ao lado da adolescente que não necessita mais ter vergonha de dizer que não é virgem, temos o rapaz que pode admitir tranqüilamente que é virgem. Ademais, a iniciação se dá com o/a namorado/a, não mais apenas com o marido (no caso da mulher) ou com a prostituta (no caso do homem). Como diz GIKOVATE (2001), “na geração do ficar, meninas e meninos da mesma faixa etária se relacionam trocam carícias, vivem experiências juntos”.
Nos anos 60, com o surgimento da pílula anticoncepcional, as mulheres conseguiram diversas conquistas no campo social e sexual; por outro lado, no final da década de 90 o ganho qualitativo mais significativo aconteceu no universo masculino – de certa forma o feminismo e, principalmente, o movimento gay emancipou o homem heterossexual de muitas convenções antiquadas. Devido a isso vários, ‘mandamentos’ da cartilha machista foram detonados: não poder chorar, pintar os cabelos, usar brincos, abraçar ou beijar amigos, envolvimento afetivo entre pai e filho, recusar cantadas femininas, dizer não ao sexo, etc. Enfim, é lícito se pensar que cada vez mais as gerações seguintes conseguirão perceber que amor é emoção, casamento é instituição social, prazer e desejo são psíquicos e reprodução é biológico.
A sociedade capitalista judaico-cristã ideologicamente forjou que essas quatro esferas só podem/devem andar juntas; entretanto, com o avanço da ciência e principalmente do individualismo as combinações entre emoção, prazer, cultura e biologia estão cada vez mais criativas. Em suma, com relação a um possível perfil geral por área, nada poderia ser dito que não soasse imprudente, visto que em algumas questões certas áreas se mostram mais conservadoras, outras mais liberais em certas práticas. Logo, aquele estereótipo de que os alunos das Exatas e os de Humanas são extremos em termos de perfil moral/sexual cai por terra quando se coligem os dados da pesquisa. Em geral destaca-se sutil conservadorismo, sobretudo no que tange a sexo com pessoa do mesmo sexo, mas certo grau de ‘avanço’ no que concerne a práticas sexuais pouco convencionais, se realizadas com uma parceira.
Notas Bibliográficas
FOGEL, Gerald. Psicologia masculina: novas perspectivas psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
FROST, Everett L. Antropologia cultural e social. São Paulo: Cultrix, 1976.
GREENHALGH, Laura. “O Sócio do Prazer”. Revista Época. 16/07/2001. pp. 52-55.
LIMA, Délcio M. O comportamento sexual do brasileiro. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
NOGUEIRA, Conceição; NEVES, Sofia. “A Psicologia Feminista e a violência contra as mulheres na intimidade: (re)construção dos espaços terapêuticos”. Psicologia & Sociedade. Vol. 15; n. 2. Porto Alegre; jul/dez 2003.
Perfil sócio-econômico e cultural dos alunos de graduação da UFMG. Belo Horizonte: Fundação Universitária Mendes Pimentel, 1997.
SIDMAN, M. Tactics of scientific research – evaluating experimental data in Psychology. Boston: Basic BooK, 1988.
THIOLLENT, Michel. Crítica metodológica, investigação social e enquete operária. 5a ed. São Paulo: Polis, 1987.
VIEIRA, Luciana S. A Sexualidade Feminina e a Mídia Atual. São Paulo: USP – Departamento de Comunicação Social, 1998. (Mimeo – dissertação de Mestrado).
Autor: Marcel de Almeida Freitas
Antropólogo, Mestre em Psicologia Social, Doutorando em Educação. marleoni@yahoo.com.br
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