| Psicologia
Hospitalar - Da Violência no processo de adoecer
SUSANA
ALAMY
Psicóloga Clínica e hospitalar
Emergente se faz que observemos como as analogias
são sempre possíveis quando falamos de hospital e
prisão, doença e medidas de contenção
(castigo ou não), quando sentidas e vividas pelo paciente,
a partir do seu próprio espectro indivisível e tão
universalmente sentido por todos aqueles que padecem ou padeceram
algum dia de alguma doença. Discorrerei neste texto sobre
os aspectos penosos, que nos remetem à violência objetiva
e subjetiva do processo do adoecer.
Foucault
fala (em Vigiar e Punir) que “a guilhotina suprime a vida,
tal como a prisão suprime a liberdade, ou uma multa tira
os bens”. E não me foge a possibilidade de substituir
guilhotina por doença, pois a doença faz uma ruptura
na vida normal do sujeito, separando-o das suas atividades corriqueiras
e lhe impondo novas situações; a possibilidade de
substituir prisão por hospital, onde nos dois ambientes físicos
há normas pré-determinadas e impostos para a manutenção
da ordem; e de multa por tratamento, quando bem sabemos que nada
mais caro ao sujeito do que a saúde. Podemos, então,
ler “A doença suprime a vida, tal como o hospital
suprime a liberdade, ou um tratamento tira os bens”?
A
violência diz respeito à “qualidade de violento;
ato violento; ato de violentar; constrangimento físico ou
moral; uso da força; coação.” (Aurélio
Buarque de Holanda, 1995)
Uma
doença que se instaure em nosso organismo, que domine nossos
desejos e nos deixe à sua mercê, direcionando-nos (ou
não) à busca pela cura, não nos é violenta?
Não nos impõe sua própria forma e não
nos determina como agir?
Sinto-me
mal e nos arremessos que tento lançar meus pés, um
atrás do outro e outro atrás do um, sinto-me impotente
e não consigo caminhar. Lança-me meu corpo à
minha cama, sem forças, com dor, com tédio. Rouba-me
minha atenção difusa para fundí-la na dor.
Chamem-me um médico, por favor!
O
processo do adoecer também tem uma ordem, é disciplinado
e facilmente observável. Primeiro temos os sintomas, depois
os olhos clínicos do médico, os exames complementares
– que hoje nem sei mais se são mesmo complementares,
pois assumiram uma posição diagnóstica que
às vezes tenho dúvidas se o diagnóstico é
feito pelo médico ou por aqueles peritos, técnicos.
Também não importa mais. Importa apenas a que submetem
o paciente, a quais exames complementares que seriam absolutamente
dispensáveis e que são às vezes tão
dolorosos. – Logo em seguida o tratamento. Permito-me uma
pausa para me deter um pouco mais neste ponto, pois quando mais
se fala em humanização dos hospitais vemos com tristeza
o médico intensivista tratando o seu paciente pelas curvas
do seu quadro clínico.
Após
o tratamento temos a sua finalização: a cura ou o
óbito. Ponto final.
Neste
caminho algumas desordens são impostas por esta ordem tão
cartesianamente construída pelo adoecer.
Qualquer
diagnóstico que imponha uma hospitalização
gera um impacto. Seja este impacto sentido objetivamente, como a
decisão a tomar em relação às diversas
maneiras de se tratar, ou subjetivamente, como as fantasias geradas
pelos estereótipos imediatamente associados àquela
patologia.
O diagnóstico pode vir com a possibilidade mutiladora ou
não, acompanhado de preconceitos que serão sentidos
pelo próprio paciente e por sua família. Não
raro vemos as famílias escondendo das pessoas o diagnóstico
do seu ente querido, bem como dele próprio.
O
impacto de um diagnóstico de câncer, aids, hanseníase,
doença terminal e mesmo a epilepsia (tão comum e tão
cheia de estigma e preconceito) dentre outros, violenta o paciente
em sua saúde, em sua maneira de viver, fazendo-o rever-se
diante de tal fato e de suas condutas comportamentais até
aqui utilizadas.
A
violência das degradações físicas, deformidades
– sejam por cirurgia, pela própria reação
do organismo, pela própria doença – e dores,
que modificam o aspecto físico do sujeito, bem como sua percepção
da vida.
Impacto
quer dizer “choque; encontrão; embate.”
(Dicionário do MEC). Então podemos entender que um
diagnóstico pode ser um ato violento e tanto mais violento
quanto menos se estiver preparado psicologicamente para recebê-lo.
Como
exemplo trago E. Kübler-Ross: “A esposa do Dr. G.
é um bom exemplo de como uma família unida reage diante
de uma notícia inesperada da existência de um tumor
maligno, Não, não pode ser verdade. Então,
ela tenta reencontrar o rumo neste tumulto (...)”.
Vêm,
então, as explicações técnicas, as possibilidades
de tratamentos, as explicações do médico. Será
que neste momento o paciente atordoado escuta? Isto importa? O médico
continua sua exposição e o paciente deverá
acatar as suas determinações se quiser se tratar.
E as ordens são sempre no imperativo e dizem respeito aos
hábitos do paciente, da sua liberdade: não pode fumar,
não pode se levantar da cama, não pode receber visitas,
não pode ir embora. Não pode. Quando o mais sensato
seria mostrar-lhe a importância dos seus atos e ajudá-lo
a tomar sua própria decisão, colaborando ativamente
no seu tratamento.
“O
se portar bem é uma das exigências implícitas
que se faz ao paciente, entendendo por isto sua dependência.”
(Bleger, 1988). Voltaremos a este tema mais adiante.
Quando
falamos em internação hospitalar é importante
lembrar que “toda instituição é o
meio pelo qual os seres humanos podem se enriquecer ou empobrecer
ou se esvaziar como seres humanos; o que comumente se chama de adaptação
é submissão à alienação e à
estereotipia institucional”. (Bleger, 1988)
Neste
momento o paciente terá seu direito de ir e vir limitado,
sente-se apreensivo e inseguro, o desconhecido se apresenta primeiramente
na sua forma física impessoal para depois se apresentar nas
mais diversas formas. A própria arquitetura do hospital,
onde portas fechadas que quando abertas levam a corredores que levam
a uma sala que leva a outros corredores e assim sucessivamente,
de modo a fazer se perder qualquer pessoa que ali entre sem ser
convidada e acompanhada. Estrutura tão similar a uma penitenciária.
Com regras tão semelhantes: o paciente só poderá
sair dali se estiver autorizado.
As
suas experiências e as de outras pessoas que conhecem, muito
lhe influenciarão na sua maneira de perceber e sentir a internação.
Por isto deve o paciente ser escutado nas suas necessidades.
“Outras
dificuldades durante a internação podem dever-se às
mudanças nas famílias, por exemplo, a enfermidade
e a cirurgia podem forçar uma pessoa muito independente a
aceitar uma dependência indesejada e mal tolerada, e isto
pode complicar ou agravar as relações familiares basicamente
conflitivas no que diz respeito ao tema da dependência e da
autoridade.” (Palomo)
E
em quantas vezes não vemos alguém impondo ao paciente
que faça isso ou aquilo, como permanecer deitado quando ainda
tem forças para se levantar? Quantas vezes não presenciamos
o familiar dizer que o paciente deve ficar quieto porque está
doente? “Foi uma observação rápida,
que nos revelou umas das necessidades da paciente: cuidar de si
mesma tanto quanto possível, manter a dignidade e a independência
sempre que pudesse.” (Kübler-Ross) Além é
claro do respeito que deve vir da equipe médica. Quando E
Kübler-Ross faz suas entrevistas com pacientes terminais revela
que “a pessoa deveria vir sempre em primeiro lugar e as
vontades do paciente deveriam ser sempre respeitadas, mesmo que
isto significasse ter uma classe de 50 alunos e nenhum paciente
para entrevistar.” Não raro nos defrontamos com
situação semelhante em hospitais-escolas, onde os
acadêmicos e residentes cansam o paciente ao executar dezenas
de vezes o mesmo exame, para aprenderem como fazer, sem nem ao menos
lhe perguntar se permite que isto lhe seja feito.
Podemos
aqui fazer um paralelo interessante do Sistema Penitenciário
na Espanha com muitos dos nossos hospitais, quando no momento em
que o sujeito chega para sua reclusão:
Nas
penitenciárias na Espanha |
Na
maioria dos nossos hospitais |
| O
sujeito recebe uma tarjeta de identificatória. |
O
sujeito recebe um número de leito. |
| Há
proibição de uniformes, o sujeito usa as roupas
que usaria nas ruas. |
Há
imposição das roupas do hospital. Uma vez presenciei
uma paciente que vinha transferida de um outro hospital. Era
politraumatizada, com lesão importante na coluna cervical,
e vinha com a roupa daquele outro lugar. Ao sair da ambulância,
ainda na maca, vieram enfermeiros para trocar-lhe a roupa,
ao que ela imporando pediu que lhe vendessem aquela que estava
usando. Pedido negado e entre gritos de dor foi trocada ali,
no corredor, porque a ambulância precisava retornar
ao seu hospital de origem. |
| Ao
ingressar o interno é reconhecido pelo serviço
médico e entrevistado por diversos profissionais da
Instituição com o fim de detectar suas carências
e necessidades. |
O
paciente é examinado pelo médico, se já
não fora antes, e somente a pedido deste há
a interconsulta com outros profissionais. Afinal, ele está
ali para tratar os sintomas que apresenta. Para tratar a patologia. |
| Pode
dispor de rádio e televisão, assim como dos
objetos pessoais cujo uso não está proibido,
pode também receber revistas e periódicos, ou
fazer uso das que se encontram à disposição
dos internos na biblioteca do Centro. |
Somente
os pacientes particulares, internados em apartamentos, têm
a chance de manter seus objetos particulares.
Não
há biblioteca disponível. Aliás, não
há biblioteca disponível em muitos lugares
onde deveria haver. Nas faculdades é comum que somente
os alunos matriculados tenham acesso ao material da biblioteca. |
| A
alimentação é livre. |
A
alimentação deverá obedecer a um critério
e deverá ser de acordo com a prescrição
médica de dieta e se com sorte determinada por um nutricionista. |
| No
caso do interno cursar algum tipo de educação
à distância se concedem bolsas de estudos. |
A
internação impõe uma interrupção
dos estudos, que no caso de crianças pode implicar
em perda do ano letivo. |
Neste
momento, as enfermeiras contribuem muito para o rebaixamento das
ansiedades e da tensão do paciente e da sua família.
“A enfermeira é um dos primeiros contatos do paciente
com o hospital, e já neste diálogo alguns dos seus
temores e ansiedades podem ser atenuados” (Palomo). O
que sem dúvida alguma é essencial, uma vez que serão
as enfermeiras os profissionais mais próximos do paciente
e da sua família, a conviver com seu humor, com suas frustrações
e ansiedades.
E
quando o paciente está no CTI? A internação
também pode ter um cunho ainda maior de enclausuramento,
de prisão: “O paciente lá dentro está
completamente protegido dos vírus, das bactérias,
dos vermes, das contaminações diversas. Protegido
também do carinho, do amor. Colocado em uma redoma fria e
monótona, distante do mundo caloroso dos contatos humanos.”
(Alamy, 1998) Seu banho será de leito, seus estímulos
visuais serão as paredes brancas e nuas, sem cores e sem
quadros, serão os aparelhos que monitoram seu organismo –
objetos de tortura, que fazem um barulho ritmado e alto.
O
tempo de visitação ao paciente é reduzido e
determinado de acordo com cada hospital, não há um
padrão. No entanto sabemos que em todos os hospitais este
tempo é por demais limitado. E. Kübler-Ross (em Sobre
a Morte e o Morrer), quando em entrevista com o esposo de uma paciente
terminal, descreve: “Quanto mais o ouvíamos, mais
se revoltava com o hospital, sobretudo com as enfermeiras, pela
crueldade em só deixar que visse sua mulher por cinco minutos
a cada hora. Sentia que era um estorvo para elas, apesar de serem
breves aqueles momentos. Aquilo era jeito de se despedir da mulher
que o seguiu durante quase cinqüenta anos? Como explicar a
um velhinho que é assim que funciona a unidade de terapia
intensiva, que existem regras e leis administrativas que regulam
as horas de visita e que visitantes demais nesta unidade são
intoleráveis, se não para o paciente, ao menos para
a sensibilidade do equipamento?”
Na
internação temos a imposição do espaço
físico ao paciente, devendo este se adaptar a este lugar.
Temos a imposição de todas e quaisquer regras que
sejam do hospital e nada se pode falar, nada se pode questionar,
correndo-se o risco de ser visto por todos como alguém de
difícil manejo. Até mesmo sua capacidade de ir ao
bloco cirúrgico, aos exames, andando com seus pés
lhe é tirada. Deve ir de cadeira-de-rodas ou de maca. Normas
que restringem o seu direito.
Trago
agora o relato de um paciente sobre a maca, o que bem caracteriza
os seus sentimentos. O texto foi modificado em partes que poderiam
identificá-lo, preservando assim sua identidade.
A
MACA
Analisar
tudo que aconteceu e gravei em minha memória durante 15 dias
de internação é difícil.
Houve,
porém, uma situação, no mínimo, diferente
do mundo ao meu redor. Andar de maca.
Primeiro,
não é andar, é ser literalmente levado. Para
aonde? Você sabe. Para o quarto, para o bloco cirúrgico,
para a UTI. Para qualquer um desses lugares “sui generis”
de um hospital.
Uma
das vezes em que andei de maca foi quando estava voltando de um
exame. Outra vez, quando fui para o bloco cirúrgico. Estávamos
eu e minha família. E eu ia para o bloco. As enfermeiras
deram-me aquela camisola azul totalmente aberta atrás e eu
fui vestir. Quando saí, estava lá, na porta do banheiro,
a maca e dois homens do bloco que foram me buscar.
Despedi-me
do médico. Depois foram as despedidas mais difíceis.
Meus pais perguntaram se poderiam acompanhar. A resposta foi positiva.
Então, restou à paciente subir na maca. E ela andou.
A
maca andou. Sabe quando você está sem lugar? Não,
não sabe. Porque somente deve sentir aquele que já
passou por uma situação semelhante. Olhar para frente,
para quê? Nem a porta do elevador se vê direito. A visão
que se tem, a de cima, reta, é péssima. E de lado
é simplesmente desconfortável. Para cima, teto. Tive
vontade de chorar. Pensei no meu pai e na minha mãe, com
certeza, aquele deve ter sido um dos piores momentos da vida deles.
E eu tinha a obrigação de não complicar, ou
melhor, de não os machucar ainda mais. Elevador. Arruma a
maca para eu entrar no espaço minuciosamente calculado. Acho
que fechei os olhos. E o meu pai e a minha mãe? Procuravam
se ajeitar naquele lugar. E eu mexendo a cabeça, procurando...
cheguei ao andar. Sair do elevador. Teto do elevador. Corredor.
Teto do corredor. E o meu pai e a minha mãe? Do lado, atrás,
sei lá... e eles muito menos. Porta do bloco. Despedida.
Virar a maca. Não se tem idéia se a parede está
vindo ou se é você quem está indo. A enfermeira
fala para dar um tchau. Eu aceno. E eles (meus pais) também.
Patético. Senti-me, depois, como uma criança que a
mãe fala: - Dê tchau! Mande beijo! E a criança
faz. Portas. Corredor. Pacientes. SALA DE RECUPERAÇÃO.
Dizia a placa. SALA DE CIRURGIA. Da maca para a mesa de cirurgia.
Acabou
a cirurgia. Maca. Teto. Teto. Paredes. Melhor fechar os olhos. Por
quê? Porque não adianta olhar. Para quê? Teto.
Teto. Teto. Parede, que você acaba não tendo dimensão
de espaço. Lado, qual lado? Nenhum é bom. É
sempre tudo igual. E o pior: você não vai, eles te
levam.
Lembrei-me
de outra maca. Esta é até chique! Na verdade, uma
cadeira de rodas enorme, que vira maca. Para entrar na ambulância.
Lá fora, um sol lindo, a piano. E: - Vamos deitar a cadeira!
– Não precisa! – Não pode! E... plaft.
Céu, céu, céu. Barulho de carro. – Mais
para cá! – Mais assim! Chão. Onde estão
as pessoas? Preocupadas com a maca. Enquanto isso, o sol lá,
brilhando... O céu lá, azul... E eu olhando... querendo
chorar. De preferência ir para casa.
Depois
das macas, fico me lembrando da minha tentativa de procurar uma
maneira de me acomodar melhor, quando estava lá. Não
existe. Quando me lembro do que vi, é pior: teto, paredes.
E a procura de me situar em corredores, ou doida para chegar na
ambulância e, enfim, me desprender.
O
melhor mesmo, é ficar de olhos fechados e abrí-los
só nos solavancos, para ver se não se vai cair.
Para
as pessoas que acompanham o paciente na maca, a melhor posição
que eles podem ficar é de lado. O paciente pelo menos vê
a pessoa mais nitidamente. A pior é atrás, acho que
nem precisa justificar.”
Vimos
acima o quanto o paciente é despojado dos seus pertences,
da sua autonomia, da sua individualidade, direitos assegurados pela
Constituição da República Federativa do Brasil
em seu artigo 5o. (1988) e desrespeitados pela doença, pelos
tratamentos, pela internação hospitalar.
O
paciente em muitos dos nossos hospitais passa a ser mais um leito,
um número de leito ou o nome da sua patologia. Não
é raro que escutemos os médicos se referirem ao doente
como “o rim do leito 21”.
Em
certa ocasião, eu participava de uma corrida de leitos junto
aos médicos; entrávamos em uma enfermaria com oito
leitos, quando um dos médicos, parado no meio da mesma, perguntou
sobre o “corte de cérebro” de um dos pacientes
da clínica que havia morrido. Fiquei pensando o que poderiam
estar pensando e sentindo os outros pacientes ali, ainda vivos e
escutando. Qual fantasia os teria dominado naquele momento? Que
seriam da mesma maneira cortados pela cabeça? A violência
subjetiva aqui é muito clara. O desrespeito pelo paciente
enquanto ser humano idem. Seria sua internação uma
punição? Por que haveriam de cortar-lhe o cérebro?
O sujeito como objeto de estudo.
“A
ciência aprofunda-se na segmentação corporal;
não considerando o espírito, afasta-se do humano.
Gera aos poucos uma fria e potente cria, seu braço armado
e insensível: a tecnologia. Como Gagárin ela tudo
vê, menos o subjetivo, característica essencial dos
seres humanos. O olho se vale do microscópio, o ouvido do
estetoscópio, a visão se transforma em radiação,
a audição se substitui pelo gráfico. Tudo vêem,
tudo ouvem; menos, e cada vez menos, o humano. O médico sábio
torna-se apenas um conhecedor. Finalmente através do microscópio
chip a tecnologia usurpa do médico seu raciocínio
e com ele sua dominância e seu prestígio. O médico
torna-se escravo dos aparelhos” (L. R. Londres). Assim é
também: a comunicação do médico “com
o paciente é com seu pulso, com sua temperatura, com seus
sons internos”. (A. Chercover)
Aqui
também “os parentes são relegados à
solidão. Passam horas esperando nos corredores, nos bares,
nas imediações do hospital, andando ao léu,
para lá e para cá. Podem fazer tentativas tímidas
na esperança de ver um médico, ou, quando conseguem
falar com alguma enfermeira, só conseguem saber que o médico
está ocupado na sala de cirurgia ou noutro lugar qualquer.
Como há um número cada vez maior de responsáveis
pelo bem-estar de cada paciente, ninguém conhece o paciente
muito bem, nem o paciente sabe o nome de seu médico.”
(Kübler-Ross)
A
violência também se faz presente nos tratamentos, muito
visível quando se trata de cirurgia mutiladora, como exemplo
nas mastectomias, nas amputações de membros, nos debidamentos
cirúrgicos e outras. Momentos para os quais o paciente carece
ser preparado psicologicamente, bem como acompanhado até
quando se faça necessário. E quantas cirurgias se
realizam sem que seja feita nenhuma avaliação psicológica
do paciente, bastando os exames de rotina para que se constate que
o paciente pode ser operado? Como se assim estivesse preparado para
a cirurgia.
Recebi
uma vez um encaminhamento de um médico que solicitava para
um dos seus pacientes, de 20 anos de idade, que fosse atendido pela
psicologia, pois se encontrava deprimido após uma cirurgia
para biópsia de um tumor no pênis e que aberto no bloco
cirúrgico havia sido o mesmo amputado. Por mais tecnicamente
que estivesse correta a cirurgia do ponto de vista da medicina,
podemos afirmar com toda a certeza que desde o início já
não se encaminhavam bem os procedimentos, uma vez que a fantasia
de castração do paciente estava iminente, mesmo que
ele não a revelasse a ninguém. Bem sabemos o valor
do pênis na nossa cultura, o valor do pênis para um
rapaz de 20 anos de idade, solteiro e sem filhos. Um descuido violento
da equipe médica? Ou uma praxe? Uma violência ao direito
do paciente em se posicionar. Pois “o dever de informação
é uma das regras primordiais da atividade médica.
O médico está proibido de deixar de informar o paciente
sobre as condições em que vai se estabelecer o seu
tratamento. Há que se contar com o consentimento do paciente,
para a realização dos atos que vão levar à
sua cura, mas este deve estar, sempre, informado convenientemente
das condições em que vão se realizar estes
atos. (...) O paciente deve ser alertado, como dever do médico,
dos riscos mais comuns. (...) Mesmo certos acontecimentos, incluídos
na pouca probabilidade do risco residual, devem ter comunicada a
sua possibilidade de ocorrerem ao paciente, devido ao grau de prejuízo
que a sua ocorrência, mesmo pouco provável, traria
ao paciente.” (N. T. C. Souza)
Em
outra ocasião me pediram acompanhamento para um paciente
vindo do bloco cirúrgico que estava muito deprimido. Paciente
com 50 anos de idade que havia sido submetido a uma cirurgia para
retirada de um tumor cerebral. A cirurgia havia sido tecnicamente
um sucesso, afirmaram os médicos cirurgiões. Um sucesso
contraposto pela cegueira que havia sido imposta ao paciente. Mais
uma vez um exemplo de violência cometida contra o paciente.
O mesmo não estava informado dos riscos.
“O
ato médico – em tanto encarna um discurso – implica
operar (inevitavelmente) de acordo com as coordenadas da ciência,
e desta maneira se deixa de lado a subjetividade de seu próprio
ato.” (Chercover)
É
preciso considerar que “para cada enfermo é difícil
abandonar-se ao cuidado de cirurgiões e anestesistas e tolerar
que seu corpo e sua vida dependam deles” (Palomo).
Mas
temos outros exemplos de violência física cometida
dentro dos hospitais, dignas de serem percebidas por todos: as agulhadas
para se colher o sangue, para se tomar o medicamento, para ser objeto
de treino do enfermeiro destreinado... Ah!, quantas não são
as vezes em que vimos enfermeiros furando por diversas vezes o paciente,
sem encontrar-lhe a veia!? E se importam com o choro em silêncio
do paciente? As dietas restritas. As dietas impostas pelo cardápio
do hospital. Os jejuns para a cirurgia do dia seguinte, que é
sempre para o dia seguinte, porque houve uma urgência e passaram
outro paciente na sua frente, ou o convênio não autorizou
a cirurgia ou a anestesia. O soro. A tala para o soro nas crianças.
Os exames dolorosos e invasivos e quantas vezes desnecessários!?
Que ameaçam a integridade física do paciente. Que
servem apenas para assegurar ao médico inseguro que o que
pensa a respeito do quadro do paciente está correto? O corpo
em cima da cama. Da cama para a poltrona. Da poltrona para a cama.
Quando muito uma voltinha no corredor.
E
o paciente sente e não é escutado. Talvez porque “os
sentimentos são mais facilmente sentidos do que compreendidos
(e, por conseguinte, tornam-se difíceis de serem explicados)."
(Mira y Lopez)
Cabe
aqui um pequeno parêntese para que pensemos também
naquele corpo que já não responde aos seus comandos,
como nos pacientes tetraplégicos, onde o paciente não
mais consegue ir e vir, tornando-se escravo de um corpo inerte e
dependente.
Da
violência afetiva podemos citar a separação
dos familiares, dos amigos, do trabalho, a confrontação
com a realidade do outro, com seu novo status de “ser
doente”, “estar doente”, invasão da
sua privacidade, da sua individualidade.
Por
quantas e quantas vezes não vi enfermeiros trocando pacientes
sem nem ao menos um biombo para preservar-lhes a intimidade. Por
quantas vezes não estava ali na enfermaria exposto o paciente
nu, enquanto o enfermeiro ia buscar algo que lhe tinha faltado para
dar continuidade ao seu trabalho. E o pudor do paciente? Quantas
vezes o senhor de idade é violentado por ser banhado por
enfermeiras? E quantas vezes a senhora de idade é violentada
por ser trocada por enfermeiros? O constrangimento de cada paciente
é nítido, mas não pode ser percebido por aqueles
que assim agem.
Ana
Cristina de Sá referindo-se à enfermagem: “Aprendemos
a registrar tudo o que ocorre no ambiente de trabalho anotando procedimentos
realizados com o paciente, evoluindo seu estado de saúde
nos prontuários e passando verbalmente aos colegas o plantão
das intercorrências de nosso período junto ao doente.
Muitas vezes, porém, deixamos de perceber aquilo que foge
à rotina e aos procedimentos técnicos que envolvem
a assistência ao ser humano, como se suas necessidades emocionais
não fizessem parte do planejamento da assistência e
à promoção do conforto a esse indivíduo.”
E
continua mais adiante no seu relato: “Fui assistir a uma
mastectomia (...). Todos se comunicavam entre si na sala de cirurgia,
exceto com a paciente. Era como se ela fosse uma peça do
mobiliário”.
Temos
a violência da repetição dos tratamentos, como
a radioterapia, a quimioterapia, a hemodiálise e as várias
hospitalizações às quais o paciente deve se
submeter, para que lhe seja garantido que tudo foi feito em prol
da sua saúde. Qual saúde?!
Às
ordens deve se submeter. Ordens que determinam o que fazer, o que
ser, que anulam o sujeito, assujeitando-o, que negam o seu direito
de ser sujeito das suas ações, da sua vida, da sua
liberdade. “Liberdade é pertencer-se a si mesmo.”
(Romano Guardini, citado por Cuevas) “Liberdade, em seu nível
mais elevado, emerge quando a pessoa, sujeito de direitos invioláveis,
é reconhecida como tal” (Cuevas).
O
sujeito passa a ter uma liberdade vigiada, seja pelo médico,
pela enfermagem, pela família ou por si mesmo, contra sua
vontade, contra seus desejos, sob coação e sob imposição.
Devemos nos lembrar que coação é também
uma violência, está descrita nos dicionários
de português.
“Devemos
ainda nos admirar que a prisão se pareça com as fábricas,
com as escolas, com os quartéis, com os hospitais, e todos
se pareçam com as prisões?” (Foucault,
2000)
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Néri T.C. O Consentimento Informado na Atividade Médica
e a Autonomia do Paciente. Revista de Psicologia On Line Catharsis.
http://www.revistapsicologia.com.br/revista41/#autonomia paciente
fonte:
psicoactiva.com/ por SUSANA ALAMY - Psicóloga Clínica
e Hospitalar. Coordenadora de Cursos, Supervisão e Estágios
de Psicologia Hospitalar - E-mail: susanaalamy@uol.com.br - HP:
http://www.phosp.hpg.com.br - Trabalho apresentado na V Jornada
de Psicologia da Universidade Vale do Rio Verde de Três Corações/MG,
16.mai.2002. Copyright © Susana Alamy. Todos os direitos reservados.
Este texto é protegido por leis de Direitos Autorais (copyright)
e Tratados Internacionais.
Agradecimentos
à Psicóloga Susana Alamy por permitir a reprodução
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