| O
TrabalhaDOR e as Organizações de Trabalho - Um Olhar
Psicanalítico
Por Juliana Kirchner Corrêa*
RESUMO
O presente
artigo provém de pesquisa bibliográfica e objetiva
a reflexão sobre como o trabalhador estrutura-se nas organizações
de trabalho. Reflete sobre o sujeito que renuncia às pulsões
a fim de garantir a sobrevivência em sociedade; considera
o trabalho uma medida paliativa que se dá pela via da sublimação
para suportarmos a vida que nos proporciona sofrimentos, decepções
e tarefas impossíveis. Através da identificação,
atrelada ao desejo de reconhecimento, o sujeito prende-se às
organizações de trabalho e estas deixam marcas. Com
seus sistemas cultural, simbólico e imaginário envolvem
o sujeito. Pretende-se lançar um olhar psicanalítico
pautado na concepção de que o inconsciente influencia
nas relações de trabalho, utilizando para isto a metáfora
das prisões psíquicas de Gareth Morgan, o estudo de
Eugène Enriquez sobre as sete Instâncias da análise
das organizações e a obra de Schirato que estabelece
a relação entre a organização e o imaginário
do trabalhador através do feitiço das organizações.
PALAVRAS-CHAVE:
Organizações de trabalho; Psicanálise; renúncia
pulsional; identificação.
O presente
artigo tem por finalidade estudar o que a Psicanálise poderia
oferecer na busca pela compreensão das relações
humanas dentro das organizações de trabalho.
Será utilizado o trabalho de três autores: Gareth MORGAN
(1996), Eugène ENRIQUEZ (1997) e Maria Aparecida Rhein SCHIRATO
(2002), em função de terem feito uso da psicanálise,
de forma implícita ou explícita, para uma leitura
das Organizações de trabalho.
Torna-se necessário enfatizar que a Psicanálise trabalha
com o sentido, e seu método não é experimental,
mas sim interpretativo, pois o sentido nunca é imediatamente
evidente (MEZAN, 2000, p. 52). O uso da psicanálise na compreensão
das relações de trabalho propõe a não
interferência na realidade das organizações,
da forma com que as técnicas e modismos atuais tentam fazer
e o fazem. Pretende uma reflexão, um olhar.
Os teóricos acima referidos estão inseridos no contexto
organizacional e acabam por proporcionar uma visão mais próxima
de uma aplicação. ENRIQUEZ (1997) esclarece que não
utiliza tão somente a perspectiva psicanalítica, coloca
como “sociologia clínica de inspiração
psicanalítica”, sua atuação visa fazer
surgir novas significações impedir que as pessoas
sejam colhidas nas ciladas das estruturas, do pensamento herdado,
das ilusões, e a lhes permitir apreenderem melhor o papel
que desempenham ou que possam ser levadas a desempenhar numa história
coletiva (p.29). SCHIRATO (2002) embasa suas idéias em Enriquez
e enfatiza acreditar que as instituições podem ser
mais humanas; faz a pós-leitura do momento em que atuou em
uma empresa que dispensou vários de seus trabalhadores, a
forma com que estes estavam presos aos feitiços da organização,
os sistemas imaginários.
MORGAN, consultor de empresas, aponta que uma das limitações
da metáfora das Organizações como Prisões
Psíquicas, seria o despertar o espectro de um mundo orwelliano
[1]
em que seria tentado gerir a mente de outras pessoas
(1996, p.238).
Cumpre fazer referência aqui do livro “Admirável
Mundo Novo” (HUXLEY, 2001), publicado na década de
1930, e que profetiza a história futura da civilização
humana, uma antevisão de futuro a qual o domínio quase
integral das técnicas e do saber científico produziria
uma sociedade totalitária e desumanizada. Uma sociedade virtual,
com a reprodução da espécie em laboratório,
seres classificados em castas, inexistência de liberdade,
felicidade à base de sedativos. A obra consiste na tentativa
do autor em prever uma sociedade pautada no controle do humano,
bem como Orwell profetizara em 1984 com “O Grande Irmão”.
Daí a necessidade de enfatizar o objetivo de reflexão,
o que serve à psicanálise é distinto da manipulação.
É sim um olhar sobre o sujeito
[2]
e as organizações de trabalho.
A
Organização de que falamos
A
Organização de que se fala é a Organização
de trabalho definida como Empresa, caracterizada pela produção
e distribuição de bens e prestação de
serviços, tendo em vista o indivíduo motor, o trabalhador.
LAPASSADE (1989), psicossociólogo estudioso das Instituições,
vem diferenciar grupos, organizações e instituições,
considerados os três níveis do sistema social. Enquanto
os grupos são as unidades base do sistema social, as organizações
são consideradas “o grupo dos grupos” e são
regidas por normas próprias que fazem a mediação
entre a base (sociedade civil) e o Estado. Já as instituições
são um sistema de normas que estruturam o grupo social, que
tem força de lei para regular o convívio social e
o seu funcionamento (p.14–15).
O termo Organização tem pelo menos duas significações:
por um lado designa o ato organizador que é exercido nas
instituições e, por outro lado, se refere realidades
sociais, sendo a Organização Social um conjunto formado
por partes que cooperam, uma coletividade instituída com
vistas a objetos definidos, tais como a produção (empresa
industrial), a distribuição de bens (empresa comercial)
e a formação de homens (instituição
educativa) (p.101).
O presente artigo surgiu primeiramente dos questionamentos: Por
que o ser humano se sujeita ao trabalho? Como as instituições
de trabalho, Organizações, lidam com o Ser humano?
E culmina na reflexão sobre a dor da renúncia pulsional,
necessária à vida em sociedade.
É interessante pensar as organizações de trabalho
com base na contradição, como propõe SCHIRATO
(2002):
A instituição é abstrata, feita por e para
pessoas concretas; é perpétua, ou pelo menos ambiciona
a perpetuidade, feita por e para pessoas efêmeras; é
jurídica, feita por e para pessoas físicas; é
de todos que com ela convivem e não é de ninguém;
é frágil, depende dos que a sustentam e promete abrigo
para os que a ela se submetem; é visionária, antevê
o futuro para garantir a própria sobrevivência e a
sobrevivência dos seus e opera cegamente no presente, em nome
da imparcialidade, do impessoal; exige criatividade constante de
pensamentos e atitudes, submetendo tal criatividade exigida aos
pressupostos eleitos e conservados como adequados; pratica o culto
da entrega e da fidelidade a seus membros, gerando a cultura de
permanência e da pertinência e rapidamente promove desenlaces
em nome da renovação, enfim, coloca-se como divina
(prepotente), recrutando, admitindo e organizando mortais, pessoas
humanas que a deusificam e praticam a fé no absoluto, no
inquestionável, no eterno (p.23-24).
De
que homem falamos? O trabalhador.
A
contradição acima apresentada remete-nos ao que MORGAN
(1996) vem afirmar quanto às organizações vistas
na perspectiva de metáfora das prisões psíquicas
onde os seres humanos tem uma inclinação toda especial
para cair nas armadilhas criadas por eles mesmos, dando a entender
que esta relação contraditória é base
do humano, criando as organizações para submeter-se
a elas (p.205).
Esta relação envolve, como aborda HANNAH ARENDT (1997),
um homem com um passado histórico onde as relações
de trabalho modificaram-se. E como ENRIQUEZ (1997) esclarece, um
homem que continua enfrentando um processo civilizatório,
sujeito que não existe fora do campo social e que acha-se
constantemente dividido entre a expressão de seu próprio
desejo (reconhecimento de seu desejo) e a necessidade de identificar-se
com o outro (desejo de reconhecimento) (p. 95).
Em “O Futuro de uma Ilusão” FREUD (1927) considera
que todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização,
embora suponha que esta seja de interesse humano universal. Aponta
que o homem não é espontaneamente amante do trabalho
e por civilização compreende tudo aquilo em que a
vida humana se elevou acima de sua condição animal
e difere da vida dos animais, que apresenta dois aspectos: inclui
todo o conhecimento e capacidade que o homem adquiriu com o fim
de controlar as forças da natureza e extrair a riqueza desta
para a satisfação das necessidades humanas; e inclui
todos os regulamentos necessários para ajustar as relações
dos homens uns com os outros e, especialmente, a distribuição
da riqueza disponível. (O Futuro de uma Ilusão, 1927).
A relação aqui estudada entre o sujeito social e o
sujeito considerado pela psicanálise e a organização
de trabalho estará pautada na renúncia pulsional,
sendo que a pulsão
[3],
por causa de obstáculos externos – obediência
ao princípio de realidade - conduziria a uma tensão
insuportável se não fosse possível reduzir
sua intensidade com deslocamentos de energia (FREUD, Moisés
e o Monoteísmo, 1939).
Assim, o trabalho é considerado uma medida paliativa na função
de evitar do sofrimento (desprazer).
“O
homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade
por uma parcela de segurança” (O Mal-Estar na Civilização,
1930).
Tendo
em vista que a civilização tem de se defender contra
o próprio indivíduo, seus regulamentos, instituições
e ordens dirigem-se à essa tarefa (FREUD, O Futuro de uma
Ilusão, 1927). A renúncia pulsional é coletiva,
em prol da sociedade, e as organizações de trabalho
fazem esta função de lei e de provedora do coletivo.
Um
olhar para uma organização
Presenciando
a palestra do diretor da melhor empresa para se trabalhar segundo
a revista Exame
[4],
sobre os programas de qualidade de vida oferecidos aos seus colaboradores
(educação, alimentação, auxílio
médico, transporte, participação nos lucros,
rádio, mural e telão que informam sobre a empresa,
intra e internet, atividades culturais, creche, auxílio maternidade,
casamento e funeral, eliminação do cartão ponto,
abertura da comunicação entre presidente e colaboradores,
etc), questionamo-nos sobre o que a empresa realmente oferecia.
A primeira impressão, compartilhada com os profissionais
da área de recursos humanos ali presentes, foi de espanto
- “Existe uma empresa assim?”.
O notável proveio das palavras proferidas pelo diretor quando
falou do programa “se eu fosse presidente”,
canal de comunicação direta via e-mail, onde todos
os colaboradores podem fazer perguntas e dar sugestões para
a alta administração e receber as respostas. O diretor
relatou que até aquele momento não havia recebido
nenhum e-mail de sugestão, somente de agradecimentos. Outro
fator digno de interesse é quanto a formulação
dos dez mandamentos da empresa, isso pela curiosa relação
de provável identificação com preceitos religiosos.
E agora, como é esta relação?
A Organização citada foi considerada como uma das
“melhores para se trabalhar”, e sabe-se que
a realidade atual da maioria das empresas ainda está atrelada
às noções mecanicistas, onde a frase que as
resume seria “você é pago para fazer, e não
para pensar”. Trata-se de uma idéia justificável
se buscarmos o cerne do conceito de organização, que
segundo MORGAN (1996) provém do grego organon, que significa
ferramenta ou instrumento, conceito surgido na época da Revolução
Industrial, onde com o advento das máquinas as pessoas não
tiveram outra escolha, senão a adaptação.
Analisando
o conceito de Trabalho
ARENDT
(1993) possibilita-nos uma visão da compreensão do
trabalho em nossa sociedade moderna. A autora realiza um resgate
da Antiguidade onde as atividades humanas fundamentais eram o labor,
o trabalho e a ação.
O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico
do corpo humano (...); o trabalho é a atividade que corresponde
ao artificialismo da existência humana, que produz um mundo
“artificial” de coisas (...); a ação,
única atividade que se exerce diretamente entre os homens
sem a mediação das coisas ou da matéria (...)
(p.15).
O
labor referia-se ao trabalho pela sobrevivência e era restrito
à oikia (casa), fazendo parte da esfera privada, no sentido
de ser “privado de”: o homem submetido às necessidades
da natureza. O produto da labuta era perecível, como o alimento
por exemplo.
Como trabalho eram consideradas as atividades que resultassem em
produtos ou bens de consumo não perecíveis, os que
permanecem no mundo. Era uma atividade considerada como não
fútil, dominada pela relação meio e fim, sinônima
de fabricação.
A ação fazia parte da esfera pública (polis)
e consistia em privilégio de alguns, os cidadãos.
Tinha como significado a dignificação do homem (virtudes)
e era espaço do discurso caracterizado pela atividade espontânea
e ilimitada.
Com o advento da sociedade moderna a ação perdeu seu
significado original e passou a ser confundida com o conceito de
trabalho da Antiguidade. Assim, a ação perde o sentido
ligado à virtude e identifica-se com a noção
de ação como atividade finalista (trabalho). A ação
torna-se um fazer. O fabricar, antes considerado trabalho, ligado
à idéia de domínio sobre as coisas, adquire
o domínio sobre os homens numa relação impositiva
de uma vontade sobre outra vontade como meio para atingir os fins
da paz, segurança, bem-estar, etc.
Com o advento da Era Moderna os significados das coisas foram instrumentalizado.
Surgiu com ela o homo faber
[5].
A esfera pública, que na antiguidade era a esfera do homem
político, passa a ser a esfera do mercado e a troca de produtos
passa a ser a principal atividade política. Assim, os homens
passaram a ser julgados não como pessoas, mas como seres
que agem, que falam e julgam como produtores, segundo a utilidade
de seus produtos. O espaço de comunicação do
homo faber tornou-se alienante, excluindo o próprio homem,
pois este passou a mostrar-se através de seu produto. Ainda
na Era Moderna ocorreu a progressiva absorção da idéia
de trabalho (produtividade) pela idéia de labor (necessidade
de sobrevivência), surgindo a sociedade de consumo onde o
centro não é mais o mundo construído pelo homem,
mas a mera necessidade de sobrevivência. Então, o homem
voltado para sua própria sobrevivência não é
capaz de dar sentido a outras coisas e as pessoas tornam-se descartáveis.
O homem é julgado pela função que exerce no
processo de trabalho e por sua produção social.
Os ideais do homo faber, fabricante do mundo, que são
a permanência, a estabilidade e a durabilidade, foram sacrificados
em benefício da abundância, que é o ideal do
animal laborans. Vivemos numa sociedade de operários, porque
somente o labor, com sua inerente fertilidade, tem possibilidade
de produzir a abundância; e transformamos o trabalho em labor
(...) (ARENDT, 1993, p.138).
A
partir disso, os detentores de empregos passaram a requerer do trabalhador
uma função automática, como se o indivíduo
fosse afogado pelo processo vital da espécie e a única
atitude exigida deste fosse o abandono de sua individualidade (p.335).
ARENDT (1993) capacita-nos a verificar que o trabalho, antes considerado
como durável e permanente no mundo, hoje assume a forma de
labor e está diretamente ligado à questão da
necessidade, da sobrevivência atrelada ao consumo.
DEJOURS (1992), teórico que estuda as relações
de trabalho e a saúde mental, afirma que a organização
de trabalho, concebida como um serviço especializado da empresa,
estranho aos trabalhadores, choca-se frontalmente com a vida mental
e, mais precisamente, com a esfera das aspirações,
das motivações e dos desejos (p.51-52).
As
Organizações como Prisões Psíquicas
A
Prisão Psíquica consiste na metáfora criada
por MORGAN (1996, p. 24) a fim de compreender as organizações
de trabalho e utiliza de conceitos psicanalíticos para explicar
as relações de trabalho. Considera que os seres humanos
possuem uma inclinação toda especial para caírem
nas armadilhas criadas por eles mesmos (p.205).
As Organizações vistas como Prisões Psíquicas
remontam a origem da idéia de Prisão Psíquica
na República de Platão, a “Alegoria da Caverna”
onde Sócrates explora a idéia de que a caverna representa
o mundo das aparências, enquanto a viagem ao seu exterior
a conquista do conhecimento. A analogia ao Mito da Caverna tem a
função de explicar que as pessoas no dia-a-dia são
enganadas por ilusões, já que o modo pelo qual compreendem
a realidade é limitado e imperfeito (p. 206).
MORGAN (1997) refere que a concepção de Freud sobre
a civilização é interessante porque enfatiza
o relacionamento de repressão psíquica, cultural e
inconsciente; e que sugere a busca de um sentido oculto da cultura
organizacional nas inquietações e interesses inconscientes
daqueles que a criam e a mantêm. Provavelmente movido por
esta idéia o autor realizou um estudo biográfico da
vida de Frederick Taylor – Pai da Administração
Científica – referindo-se a este como um homem preocupado
com o controle e de caráter obsessivo-compulsivo. Conclui
que toda a teoria da Administração Científica
foi produto das lutas interiores de uma personalidade perturbada
e neurótica, e que os esforços de Taylor para controlar
e organizar o mundo foram tentativas de controlar e organizar a
si próprio. Comprova desta forma as organizações
como sexualidade reprimida (p.210-212).
Este autor ainda descreve a relação existente entre
as organizações, a morte e a imortalidade, explicita
que ao identificar-se com a organização o homem encontrar
significado e permanência, faz do seu papel sua realidade
e; o estabelecimento de objetivos pessoais e organizacionais reafirmam
sua confiança no futuro. As pessoas utilizam mitos, rituais
e modelos detalhados de envolvimento para defenderem-se contra a
consciência da sua fragilidade (p.219 – 220).
A
Organização em Análise
ENRIQUEZ
(1997) demonstra de forma mais aprofundada a psicanálise
ao enfatizar que seu trabalho é constituído de uma
reflexão e que não pode ser de maneira alguma uma
psicanálise do poder e das Instituições. Diz
ainda da originalidade de Freud ao construir uma ciência do
singular, apesar de suas leis gerais, e que esta não pode
ser exercida senão numa relação de indivíduo
para indivíduo. Convenhamos, refletir é muito diferente
de exercer.
Este autor tem a concepção geral da Organização
como Sistemas Cultural, Simbólico e Imaginário que
coexistem. É um sistema cultural porque oferece uma cultura,
normas e valores que orientam a conduta, porque estabelece papéis
a cumprir, fornece hábitos de pensamento e ação
em prol da coletividade. É simbólico porque não
pode viver se não segregar um ou mais mitos unificadores,
que viverão na memória coletiva e não pode
viver sem instituir ritos de iniciação e passagem,
sem firmar heróis. Assim, a organização se
oferece ao trabalhador como objeto a interiorizar e a fazer viver;
desenvolve um controle afetivo
[6]
e intelectual. È um sistema
imaginário porque sem este o simbólico e o cultural
teriam dificuldades em estabelecerem-se (p.33-34).
Ressalta que as organizações tem opção
entre duas formas de imaginário: enganador e motor. O Imaginário
enganador seria aquele que tenta prender os indivíduos nas
armadilhas de seus próprios desejos narcisistas, no fantasma
de onipotência ou carência de amor, a organização
“protege” o indivíduo do risco de quebra de sua
identidade. Já o imaginário motor, teria mais benefícios
por apostar no imaginário criativo, sem que o trabalhador
sinta-se reprimido por regras imperativas. Porém, refere
que este é dificilmente suportável por favorecer a
criatividade, a capacidade de questionar e transgredir tudo; é
um desafio às regras que regem as organizações
(p.36).
ENRIQUEZ faz a análise das organizações através
de sete instâncias.
Na Instância mítica diz não haver sociedade
sem um discurso inaugural e a ausência desse traduz um mundo
da animalidade e não o da civilidade. O mito fala da origem
das coisas, estrutura o mundo e as pessoas, é dito ainda
em duas formas: afetiva - visa à fascinação,
ao enfeitaçamento e que congrega a comunidade em torno da
narrativa provocando nela uma identificação com os
protagonistas, é pois, o criador do vínculo social;
e intelectual - exprime uma forma simbólica concreta que
permite aos homens pensar com uma mesma coerência, a natureza
e a sociedade. Porém, o mito, conservador por excelência,
fecha os indivíduos, impedindo-os de tomar consciência
daquilo que está acontecendo entre eles e o mundo. A angústia
é suprimida pelo mito, pois transforma a angústia
pessoal em um problema coletivo, permite a cada um se aceitar como
indivíduo pulsional e indivíduo social ao mesmo tempo;
viver no mito é se refugiar no calor da comunidade, da ilusão
comunicada, da idealização mistificadora, da alienação
consentida.
A Instância social-histórica diz que em nossa sociedade
moderna o apelo ao mito não basta e que as sociedades são
regidas pela resposta única - a ideologia, esta tem por função
principal “polir o social” a fim de lhe dar a homogeneidade
requerida; pertence à ordem do visível e representável,
expressa e mascara ao mesmo tempo a realidade.
A Instância Institucional busca a estruturação
estável das relações sociais, mascara conflitos
para fazer surgir a harmonia e renuncia às pulsões
egoístas para chegar às pulsões altruístas
canalizando a agressividade. O homem presente nas instituições
não pode viver nelas senão na aceitação
do sistema das leis e das proibições, graças
à elas o homem adquire identidade social, o que o autoriza
ser reconhecido pelo outro.
A Instância Organizacional diz que uma instituição
não existe fora das organizações concretas
que ela produz e dá sentido. A instituição
é lugar do político e da tentativa de regulação
global. A organização é o lugar das relações
de forças cotidianas, das lutas implícitas e explícitas
e das estratégias. Não existe organização
sem estruturação e todas lutam contra o caos desorganizador,
lutam para se defender das pulsões de destruição,
tentam canalizar a pulsão da vida unicamente para o trabalho
produtivo. As organizações utilizam métodos
racionais com o objetivo de dominar as incertezas, tornar o futuro
mais previsível e retirar-lhe sua carga de ansiedade.
As organizações são o lugar privilegiado da
compulsão a repetição (uma das formas da pulsão
de morte) e da manifestação de condutas perversas
de tipo sado-masoquista, que são as únicas a serem
adequadas a um mundo criado para funcionar segundo um modelo determinado
e não segundo um processo vivo (p.87).
Já
a Instância Grupal destaca o conflito entre o reconhecimento
do desejo e o desejo de reconhecimento (identificação).
Sobre o reconhecimento do desejo ENRIQUEZ expressa:
As pessoas querem se fazer amar ou pelo menos não serem rejeitadas,
se fazem parte de um grupo, não é apenas porque quer
concretizar um projeto coletivo, é também, porque
ela pensa que é com essas pessoas e não com outras,
graças a esse imaginário comum e não graças
a um outro, que ela poderá chegar a tornar reconhecível
seu desejo na sua originalidade e especificidade, ser insubstituível.
Cada pessoa irá tentar prender a outra na rede de seus próprios
desejos, manifestar no real seus fantasmas de onipotência
e negar a castração (...) (p.95).
O
indivíduo não exprime apenas seu desejo próprio
num grupo, quer igualmente ser reconhecido como um dos membros do
grupo. Para que haja reconhecimento recíproco, devem se identificar
uns com os outros, colocar um mesmo objeto de amor (causa) em lugar
do seu ideal de eu.
Quanto à Instância Individual afirma que as
organizações não podem impedir a existência
de desviantes e marginais, mas elas preferirão sempre os
loucos pelo poder, os hipernormais, os indivíduos submissos,
salvo quando elas estão criando. Neste momento pelo contrário,
elas têm geralmente necessidade de pessoas desejosas de chegar
à autonomia (p.122).
A última das instância referidas por ENRIQUEZ é
a Instância Pulsional, que atravessa todas as outras instâncias.
Nesta fala ainda que:
Os mecanismos que me parecem comportar as conseqüências
mais perigosas para a organização são não
o recalque, mas a negação e a exclusão (...)
a negação (mecanismo de defesa que consiste na recusa
de reconhecer a realidade de uma percepção traumatizante)...as
organizações suportam mal a idéia de que poderiam
viver sob a ameaça de uma castração (...) a
negação é também acompanhada pelo reconhecimento
da coisa negada. (...) Na organização, o tempo e a
morte serão ao mesmo tempo negados e aceitos. Mas a força
da negação será tanta, e a clivagem
[7]
da realidade de tal modo importante, que tudo
que pode lembrar a organização que ela é mortal
e falível será com muita freqüência rejeitado.
A realidade então não será jamais percebida
pelo que ela é (p.127).
ENRIQUEZ
refere que as organizações assumem também a
pulsão de destruição, pulsão de morte
[8],
na medida em que impedem a atividade simbólica, pois o que
é excluído do simbólico reaparece no real,
na forma de imprevisível e com freqüência catastrófico.
Assim, a pulsão de morte está presente de maneira
importante nas organizações (p.127).
O Feitiço das Organizações
SCHIRATO
(2002) acredita que as instituições podem ser mais
humanas. As organizações empresariais podem e devem
procurar a felicidade do homem em sua qualidade de vida, no conforto
da alta tecnologia, no dinheiro como instrumento de aquisição
de bens de consumo que facilitam a vida, na oportunidade de explorar
esse mundo maravilhoso, desfrutar a natureza, ter acesso à
cultura, obter erudição pelo conhecimento, conquistar
a paz e viver em paz.
A autora lança questionamentos a respeito da dor da demissão,
observando o quanto é árduo é para os trabalhadores
serem dispensados. Aprofundou-se nas leituras de ENRIQUEZ sobre
os sistemas imaginários que permeiam as relações
humanas dentro das organizações.
O feitiço das organizações é o espaço
ocupado pelo imaginário, cujo conteúdo foge do controle
racional e torna-se às vezes determinante na forma de comportamento
dos indivíduos.
Denuncia o perigo da personalidade do indivíduo estar fundida
com a identidade da organização. Percebe que as intenções
e promessas do discurso das políticas de Recursos Humanos
são perversas, já que o indivíduo é
desapropriado de sua vida pessoal e é explorado não
só em sua força de trabalho, mas também em
sua afetividade, lazer e em toda sua agenda pessoal. Segundo SCHIRATO
o trabalhador torna-se:
Infantilizado e inseguro, não lhe restam muitas esperanças
e perspectivas fora da empresa-pátria-mãe, que ao
pedir-lhe fidelidade e disponibilidade total, coloca-o como insubstituível,
reforçador da cultura da casa, devoto e importante acima
de qualquer suspeita. Seu sobrenome é acrescido de mais um
nome, o da empresa, que lhe empresta a categoria de cidadão
de primeira linha, distinto dos demais cidadãos de seu bairro,
de sua cidade (2002, p.17).
Nesta fusão são grandes os prejuízos: o trabalhador
perde a capacidade de planejar a própria vida, dirigir seu
destino e ser, ao longo de sua existência mais do que um trabalhador,
uma pessoa em sua plenitude; perde a organização,
quando o vínculo torna-se pseudo-familiar; as relações
tornam-se domésticas e a preocupação com a
qualidade do trabalho e a reciclagem de pessoal tornam-se secundárias.
Considera a necessidade de resgate da primazia do humano, na construção
de uma sociedade mais justa.
Como já citado na introdução do presente artigo,
SCHIRATO aborda as organizações, apontando em especial,
as contradições existentes na relação
trabalhador e organização de trabalho. A organização
como instituição abstrata, que ambiciona a perpetuidade,
que depende dos que a constituem, os trabalhadores, pessoas concretas
e efêmeras que submetem-se à elas. Organizações
que colocam-se como divinas, recrutando e admitindo os mortais.
SCHIRATO acrescenta à nossa leitura da organização
que esta está baseada em intenções e promessas
que forjam uma pseudo-realidade que vem a impedir qualquer pretensão
de avaliação racional e minimamente objetiva das relações
que cria. Tanto a segurança do emprego quanto o abandono
do desemprego estão muito mais no imaginário do trabalhador
do que nos fatos reais (p.54.)
Cita MONIER (1976) ao dizer que a maioria dos homens prefere a escravidão
na segurança ao risco de independência, frase que ilustra
de outra forma o que FREUD (1930) coloca como: “O homem civilizado
trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma
parcela de segurança.” (O Mal-Estar na Civilização,
1930).
TrabalhaDOR
– aquele que carrega a DOR em seu nome
A
vida, tal qual a encontramos, é árdua demais para
nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções
e tarefas impossíveis. A fim de suportá-las não
podemos dispensar as medidas paliativas (Mal-Estar na Civilização,
1930).
FREUD
(1930) coloca que o sofrimento nos ameaça a partir de Três
direções: o próprio corpo, fadado à
decadência; o mundo externo, que pode voltar-se contra nós
com forças de destruição e; o relacionamento
com os outros, colocado como talvez sendo a fonte do sofrimento
mais penoso. A defesa imediata contra este sofrimento seria o isolamento,
porém que o melhor caminho a tomarmos é o de tornarmo-nos
membros da comunidade humana.
Sendo a resposta o sujeitar-se ao princípio de realidade.
A meta de satisfação não é abandonada,
mas garante certa proteção contra o sofrimento. Assim,
o trabalho é considerado como medida paliativa, satisfação
substitutiva, ilusão em contraste com a realidade.
As pessoas são enganadas por ilusões, as intenções
e promessas forjam uma pseudo-realidade, enfeitiçam o trabalhador.
O enlaçamento entre trabalhador e organização
de trabalho ocorre pela via do imaginário, seja ele enganador
(prende os indivíduos nas armadilhas de seus próprios
desejos narcisistas) ou motor (beneficia o potencial criativo) para
proteger o indivíduo contra a quebra de sua identidade, profere
identidade, dá ao indivíduo um sistema de normas e
valores, fornece um mito original com a capacidade de estruturar
a luta contra o caos desorganizador, retira as incertezas tornando
o mundo previsível.
A relação entre a organização de trabalho
e o trabalhador sempre será uma relação de
dor. Terá em si o peso de uma renúncia pulsional em
prol da vida em sociedade.
O que talvez tenha sido um agravante na dor do humano, em hipótese,
pode ainda estar atrelado à mudança no conceito de
trabalho, uma mudança subjetiva sobre a necessidade do trabalho.
Hoje temos um homem que labora, que com o advento das relações
industriais tornou-se consumista e consumível. O prazer no
consumo, que antes com o trabalho referia-se a coisas duráveis
agora, atrelado ao labor, adquiriu a característica de descartabilidade.
Não há espaço para o durável, o consumo
é veloz.
As grandes empresas utilizam-se dos mitos justamente porque é
também uma forma de suprimir a angústia, transformam
a angústia pessoal em um problema coletivo. Permite assim,
que cada um aceite-se como indivíduo pulsional e indivíduo
social ao mesmo tempo. A questão da relação
do trabalhador com a organização de trabalho é
que ele pode refugiar-se na comunidade, alienar-se.
Então torna-se fácil correlacionar o por quê
dos colaboradores da empresa referida ao início do artigo,
não opinarem e somente agradecerem por trabalharem em uma
organização tão boa, a melhor; e não
manifestarem-se no programa “se eu fosse presidente”,
simplesmente porque não o são e nem pretendem ser.
O imaginário enganador forja uma pseudo-realidade que é
vivenciada pelos trabalhadores com muito orgulho. Afinal, fazem
parte de uma das melhores empresas para se trabalhar.
O que um olhar psicanalítico pode nos proporcionar quando
voltado para as relações de trabalho, sobre o que
estrutura o sujeito, é um olhar mais profundo que vai além
da superfície, além da compreensão explorador/explorado.
Ambos, organização e trabalhador, saem ganhando na
relação, mesmo que isto signifique sair perdendo.
Pois, se considerarmos que a adaptação, a alienação,
movem os indivíduos na direção na manutenção
do sintoma, na direção da repetição,
da homogeinização, passamos a considerar que a pulsão
de morte está fortemente presente, uma forte tendência
à estagnação. O que não impede que através
da reflexão constante, suas conseqüências não
possam ser amenizadas, na busca para manterem-se vivas.
A organização estrutura o social, provê o indivíduo
e dá a este um lugar de significação, dá
sentido e permanência. A renúncia é dolorida,
mas não está atrelada somente ao trabalho, está
na amplidão da estrutura da vida em sociedade. O ser humano
se sujeita ao trabalho por ser esta uma das formas de canalizar
a pulsão- energia que antes do processo civilizatório
era estritamente sexual ligada ao ser animal – e com isto
garante um certo retorno de seu investimento (libido – força
de trabalho), a satisfação adiada que chega ou não
pela via do reconhecimento.
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Autora:
Juliana Kirchner Corrêa - Trabalho de Conclusão de
Curso, Graduanda do 5º ano de Psicologia da Universidade Tuiuti
do Paraná- 2003. Hoje Psicóloga CRP 08/10.003 - Curitiba
– PR. email: kirchner_ju@hotmail.com
Jorge Sesarino - Professor do Curso de Psicologia da Universidade
Tuiuti do Paraná, supervisor na confecção do
presente artigo científico. |