| Identidade
do Psicólogo no meio Hospitalar
Quando falamos em identidade do psicólogo
no meio hospitalar devemos ter em conta algumas considerações,
como a inserção do psicólogo na instituição
e sua atuação nas clínicas.
I.
INSERÇÃO DO PSICÓLOGO NO MEIO HOSPITALAR
A
inserção do psicólogo no meio hospitalar se
deve a resistências por parte da instituição,
dos médicos e dos próprios pacientes, suscitadas por:
-
medo da subjetividade suscitada, trazida à tona pelo psicólogo.
Medo da leitura do não-dito, que permeia muitas das relações,
pondo em jogo as verdades;
-
onipotência do médico - que detém o discurso
do saber;
-
onipotência do psicólogo - que em sua leitura própria
do sujeito encontra todas as respostas, "psicologizando"
todas as manifestações orgânicas;
-
diversidades de técnicas de atendimento psicológico
(que variam de acordo com as necessidades do paciente e princípios
do psicoterapeuta, indo desde uma escuta analítica até
uma intervenção direta e auxiliar como relaxamento);
-
vulgarização da psicologia pelos próprios profissionais
(quando os profissionais de psicologia trazem respostas prontas
e simplistas, colocando em dúvida a veracidade das mesmas).
A
necessidade de se ter o psicólogo na instituição
hospitalar é reconhecida quando:
-
apenas os fatores anatômicos, físicos e químicos
não são suficientes para justificar e tratar determinadas
patologias;
-
são reconhecidos os fatores inconscientes atuantes em diversas
patologias, como nas doenças psicossomáticas;
-
através da psicoterapia é possível ao paciente
trazer à tona a causa dos seus sofrimentos, possibilitando
ao mesmo elaborá-los;
-
há o reconhecimento do conceito de saúde emitido pela
O.M.S. (Organização Mundial de Saúde): "Saúde
é o total bem-estar biopsicossocial do homem e não
somente a ausência da doença".
-
os resultados práticos do atendimento psicológico
repercutem na alta hospitalar do paciente. Como exemplo, podemos
pensar no paciente deprimido e no que não está deprimido.
O paciente não deprimido responderá melhor e mais
eficientemente ao tratamento médico;
-
há diminuição de ansiedades pré-cirúrgicas
possibilitando ao médico melhor comunicação
com o paciente;
-
o sujeito doente sofre desequilíbrio em uma das instâncias
bio-psico-social e através da psicoterapia é possível
restabelecer seu equilíbrio anteriormente existente. Quando
falamos de psicologia hospitalar, falamos do atendimento prestado
àquele paciente que tem como "foco" a causa da
sua internação, da sua doença, portanto motivo
este do atendimento.
II.
ATUAÇÃO DA PSICOLOGIA NAS CLÍNICAS
A
atuação da psicologia nas clínicas se faz considerando
a especificidade de cada uma delas e de seus pacientes, onde temos
sempre em conta a "simbologia dos órgãos"
afetados, dos órgãos doentes. Um paciente cardíaco
terá fantasias relacionadas à importância do
coração, aos mitos referentes a este.
A
atuação pode se dar em ambulatório, enfermaria,
CTI e apartamento, onde a reação do paciente frente
a estes lugares se dará de modo específico e singular.
Com certeza um CTI amedronta muito mais a um paciente do que um
apartamento. Não podemos desconsiderar as fantasias suscitadas
em cada um destes lugares. Podendo o paciente ser trabalhado individualmente
ou em grupo, em situações de cirurgia (psicoprofilaxia
cirúrgica ou somente em preparação psicológica
para cirurgia), tratamento clínico da doença e/ou
hospitalização - situação em que por
si mesma é geradora de ansiedades e angustias, de stress,
podendo desencadear problemas psicoafetivos.
Na
nossa atuação objetivamos:
-
o processamento de informações, ou seja, a forma como
o paciente está processando as informações
trazidas pelos médicos, pela enfermagem, pelos familiares,
etc.;
-
a elaboração da situação vivenciada
pelo paciente, trabalhando-o nos níveis psicodinâmicos
(inconsciente e consciente), observando sua compreensão e
insight do que se passa, observando seus limites;
-
a diminuição dos medos básicos, da ansiedade
e da angústia em níveis tolerados pelo paciente -
quando se trata de situações de cirurgia ou não.
Muitas vezes o stress provocado por uma doença poderá
ser o momento oportuno de reflexões para o paciente, sendo,
então, positivo;
-
evitar que as "intervenções técnicas"
(as cirurgias e os exames complementares) possam dar lugar a uma
organização de características psicopatológicas
na personalidade do paciente, quando começam a aparecer sintomas
que estavam ocultos e não remetem à clínica,
aos sintomas clínicos em questão;
-
priorizar ou relativizar as dificuldades do paciente. Um paciente
que irá se submeter a uma cirurgia poderá estar ansioso
por medo da anestesia, da morte etc., cabe ao psicólogo escutar
e analisar sua demanda mais imediata.
Atuando
de forma interagida e dinâmica junto ao médico, obteremos
melhores resultados no tratamento, porque assim estaremos objetivando
a melhora do paciente enquanto um todo.
É importante que o psicólogo esteja atento à
sua onipotência e ter capacidade de trabalhar conjunta e interagidamente
com o médico, bem como com toda a equipe de saúde.
Trabalhar conjuntamente implica em respeitar a ciência de
cada um e seus limites e ter espaço para serem colocadas
todas as opiniões, divergências, para que se possa
chegar a um denominador comum em relação ao paciente.
A
atuação conjunta com o médico é muito
rica quando possibilita ao paciente ser atendido em seus aspectos
subjetivos e concretos, sem que seja fragmentada por cada profissional,
oferecendo a ele também uma outra escuta para seus sofrimentos.
Muitas
vezes, por desconhecimento de outros profissionais da saúde
e da própria instituição, o psicólogo
é confundido com o assistente social, terapeuta ocupacional
(quando atendendo crianças) e outros. Neste momento é
importante demarcar o seu lugar, esclarecendo as dúvidas
que originaram tal concepção errônea. É
um dos momentos oportunos para o psicólogo falar do seu trabalho
e o tornar claro aos outros.
Lembrando
que sempre cabem as reflexões sobre as demandas existentes,
se são elas dos médicos, do paciente, etc.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
-
ALAMY, Susana. Introdução à Psicologia Hospitalar.
revista Insight Psicoterapia, ano II, no. 18, maio/1992.
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ALAMY, Susana. Considerações sobre Psicoprofilaxia
Cirúrgica em Hospital geral.
Texto apresentado no "Seminário de psicologia Hospitalar",
Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte/MG, 18/fev/1993.
-
ALAMY, Susana. aspectos Biopsicossociais da Cefaléia Tensional.
Conferência realizada em 23/ago/1993 no "V Encontro Nacional
dos Psicólogos da Área Hospitalar", Rio Quente/Goiás.
-
ALAMY, Susana. Cefaléia Tensional - Valor da Psicóloga
no Diagnóstico e Tratamento. Conferência realizada
em 30/jul/1993 no "VII Congresso do Centro de Estudos da Clinica
Neurológica e Neurocirúrgica da Santa Casa de Belo
Horizonte", Montes Claros/MG.
-
BEZERRA SANTOS, Francisco José. A Psicanálise na Formação
do Psiquiatra. A experiência da Residência Médica
em Psiquiatria do Hospital de Saúde Mental de Messejana -
Fortaleza - CE. Jornal Bras. Psiq. , 42(5) : 269-272, 1993.
-
CLAVREUL, Jean. El Orden Médico. Argot, Barcelona, Espanha,
1983.
-
FREUD, Sigmund. uma Breve Descrição da Psicanálise.
Edição Standard das Obras psicológicas Completas
de Sigmund Freud. 19: 239-259.
-
FREUD, Sigmund. As Resistências à Psicanálise.
Edição Standard das Obras psicológicas Completas
de Sigmund Freud. 19:265-275.
fonte:
psicoactiva.com / Por Susana Alamy - Conferência realizada
em 30/agosto/1933 no Seminário "Na Era da Multidisciplinariedade
- 1º. Intercâmbio Cultural da Santa Casa - Brasil/Bélgica
- Belo Horizonte/MG"
Agradecimentos
à Psicóloga Susana Alamy por permitir a reprodução
dos seus artigos científicos no site Atlaspsico.
Obrigado!
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