| Do
efeito iatrogênico da palavra (*)©
SUSANA
ALAMY
Psicóloga Clínica e Hospitalar
Especialista em Psicologia Hospitalar
 |
Este
exemplo é baseado em um atendimento realizado por uma
das minhas estagiárias, que me foi gentilmente autorizado
por ela para publicação. |
CASO
JOÃO
Criança
de quatro anos e seis meses de idade, internada com o diagnóstico
de broncopneumonia e asma, não sendo esta sua primeira internação
hospitalar. Contou com duas sessões de acompanhamento psicológico.
Transcrevo
os atendimentos:
1o. Encontro:
Quando cheguei na enfermaria percebi que J. estava sozinho e cho-rando
muito. Fui ao seu leito e ele me pediu (chorando) para ir ao banheiro.
Desci-o do leito e o levei até o banheiro. Ao sairmos de
lá, ainda chorando, perguntei-lhe o que havia acontecido.
J. me disse que sua mãe tinha ido embora. Coloquei-o em meu
colo e disse-lhe que sua mãe tinha ido embora, mas que voltaria
assim que pudesse para vê-lo.
A
criança foi internada hoje e estava muito assustada com tudo
à sua volta.
J.
desceu do meu colo e puxou-me pela mão até à
janela. Coloquei-o sentado e ele ficou chorando e apontando para
a janela dizendo algu-ma coisa sobre sua mãe (eu quase não
entendia o que ele falava). Teve momentos sem choro, mas, de repente,
recomeçava e chamava pela sua mãe.
Disse-me
que queria ir embora. Eu falei que assim que ele melhoras- se, ficasse
bom, que poderia ir embora para a sua casa. Perguntei se era isso
que ele queria e J. me disse que sim, balançando a cabeça.
Falei, então, que ele tinha que tomar todos os remédios,
que assim ele ficaria bom para voltar para casa.
Ele
acalmou-se muito depois dessa nossa conversa e continuou olhan-do
pela janela, só que sem chorar. Despedi-me dele dizendo que
precisava ver outras crianças. J. concordou gesticulando
com a cabeça e disse-me que não ia mais chorar.
2o.
Encontro:
Fui ao encontro de J., porque tinha percebido no primeiro atendi-
mento uma demanda. Ele pareceu-me uma criança reprimida:
fala muito baixo, tem vergonha de pedir e falar das coisas que quer,
quase não olha para cima...
Assim
que cheguei, J. sorriu e deu-me um “oi” balançando
com as mãos. Ele estava sentado na cadeirinha, brincando
de carrinho com outras crianças da enfermaria. Ao aproximar-me
perguntei-lhe como estava e ele disse-me que estava bem, que tinha
tomado todos os re-médios e aí me perguntou “minha
mãe vem me buscar?” (sic)
Nessa
hora, percebi que no meu atendimento anterior, uma interven- ção
que fiz não tinha sido adequada, uma vez que tinha se lembrado
da minha fala que dizia que quando ele ficasse bom sua mãe
viria buscá-lo. Como ele achava que já estava bom,
com certeza queria saber, então, quando ela viria.
Respondi-lhe
que não sabia, mas que eu estava feliz em saber que ele estava
melhorando a cada dia. Pergunto-lhe se ele queria brincar e ele
me disse que sim. Disse-lhe que ia buscar uns brinquedos para ele
e que já voltava.
Fui
buscar a família das girafinhas, porque queria trabalhar
com J. a questão da separação dele da sua família.
Quando
voltei, J. estava à minha espera. Brincou um pouco com as
girafas, mas quando comecei a contar uma estória sobre a
família das girafas, ele disse-me que queria brincar de carrinho.
Tentei insistir mais um pouco, mas ele não quis. Não
queria nem conversar, só brin- car de carrinho com os outros
meninos.
Não
tive uma boa resposta nesses dois atendimentos com o J. A intervenção
inadequada que fiz no primeiro contato, refletiu sobre o segundo
de duas formas: uma, na fala dele a respeito da minha in-tervenção
e outra, na minha maneira de conduzir o atendimento: já não
estava mais à vontade e sentia-me insegura ao seu lado. Por
isso encerrei o atendimento, mas J. ainda sorria para mim ao me
despe-dir.
.
Analisemos os atendimentos:
1. “Coloquei-o em meu colo e disse-lhe que sua mãe
tinha ido embora, mas que voltaria, assim que pudesse para vê-lo”,
reflete uma tentativa paliativa de consolo, sem ter elementos suficientes
para afirmar que ela voltaria para vê-lo.
2.
Quando a estagiária coloca para a criança que “assim
que ele melhorasse, ficasse bom, que poderia ir embora para a sua
ca-sa”, reforçando a sua fala em “falei que ele
tinha que tomar todos os remédios, que assim ele ficaria
bom para voltar para casa”, em primeiro lugar, assume um papel
que não lhe cabe: o de determinar que tome os remédios,
colocando-os como ele- mentos mágicos e curadores e, em segundo
lugar, “promete” a alta hospitalar caso “melhore”,
sem ter elementos suficientes para tal conclusão, desconsidera
a capacidade da criança de auto-julgamento do seu estado
de saúde, não relevando a forma como pode ser percebida
esta melhora por ela.
3.
“Ele acalmou-se muito depois dessa nossa conversa e conti-
nuou olhando pela janela, só que sem chorar.” –
O objetivo da estagiária é atingido (que a criança
parasse de chorar, de sofrer), a custo de uma promessa feita, não
da elaboração do fato.
4.
“Ao aproximar-me, perguntei-lhe como estava e ele disse-me
que estava bem, que tinha tomado todos os remédios e aí
me perguntou “minha mãe vem me buscar?” (sic).
Nesta colocação, fica clara a cobrança da promessa
que havia sido feita e o efeito negativo da mesma passa a ser esperado,
uma vez que o estar bem para criança não representa
necessariamente o estar bem clinicamente. A promessa não
pode ser cumprida pela estagiária, o que lhe dá um
feed-back da situação (“nessa hora, percebi
que no meu atendimento anterior, uma intervenção que
fiz não tinha sido adequada, uma vez que tinha se lembrado
da minha fala que dizia que quando ele ficasse bom sua mãe
viria buscá-lo. Como ele achava que já estava bom,
com certeza, queria saber, então, quando ela viria”)
e a deixa insegura, e, tentando contornar a situação,
diz que “estava feliz em saber que ele estava melho- rando
a cada dia”, talvez, numa tentativa de fazê-lo perceber
que ainda não estava suficientemente bom.
5.
Tenta ainda trabalhar a questão da separação
da mãe, perce- bida como um ponto focal merecedor de atenção
e elaboração. Vai buscar uma família de girafas.
“Brincou um pouco com as girafas, mas quando comecei a contar
uma estória sobre a famí- lia das girafas, ele disse-me
que queria brincar de carrinho. Tentei insistir mais um pouco, mas
ele não quis. Não queria nem conversar, só
brincar de carrinho com os outros meninos.” Neste momento,
podemos notar a presença de elemento ansiogênico da
estagiária, pois ela conta a estória e quando a criança
se identi- fica e resiste, ela ainda insiste.
6.
A estagiária percebe seus erros: “não tive uma
boa resposta nesses dois atendimentos com o J. A intervenção
inadequada que fiz no primeiro contato, refletiu sobre o segundo
de duas formas: uma, na fala dele a respeito da minha intervenção
e outra, na minha maneira de conduzir o atendimento: já não
estava mais à vontade e sentia-me insegura ao seu lado.”
E ainda tenta se con- fortar quando coloca que: “mas J. ainda
sorria para mim ao me despedir”, ou seja, podemos entender
como: não foi uma inter- venção tão
maléfica assim; ou ainda: ele perdoou-me, ou ainda: ele compreendeu-me...,
por isso “ainda sorria para mim”. Ou mesmo porque, inconscientemente,
compreendeu o significado de “ainda estar melhorando”.
Os
malefícios das suas intervenções podem ter
sido maiores e mais acentuados, mas não temos elementos concretos
que pos- sam confirmar nossas hipóteses, no entanto, podemos
fazer in- ferências que nos sirvam para reflexões e
posteriores acertos. Pois a criança pode entender com sua
fala que tomar todos os re- médios a fará melhorar,
o que pode desencadear um compor- tamento compulsivo de tomar remédios
sem a vigilância da mãe, em todos os momentos em que
não se sentir bem, pretendendo evitar a internação
e assegurar que esteja em casa. Neste caso, teríamos, com
clareza, um efeito iatrogênico da sua fala.
Iatrogenia
significa, transcrito do Aurélio Eletrônico “alteração
patológica provocada no paciente por tratamento de qualquer
tipo: ‘um dos capítulos mais importantes da ciência
médica atual é a iatrogenia, que cuida dos males provocados
pela ação do médico, ou pelo tratamento por
este prescrito’." (Clementino Fraga Filho, ap. Carlos
Drummond de Andrade, Jornal do Bra-sil, 2.8.1980).”
No
entanto, devemos levar em consideração que a iatrogenia
resulta da ação que tem a intenção de
salvar, de ajudar e de curar, mas que vem a causar efeitos colaterais
muitas vezes ines- perados e em outras já previsíveis,
pelos quais se faz a opção, como nos casos dos medicamentos
(iatrofarmacogenia), enten- dendo-se que os efeitos positivos possam
superar os seus male- fícios.
(*) Capítulo do livro Ensaios de Psicologia Hospitalar –
a ausculta da alma, Susana Alamy, 2003 (clique
aqui para visualizar o livro "a ausculta da alma")
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Agradecimentos
à Psicóloga Susana Alamy por permitir a reprodução
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