| As
Caçadas de Pedrinho
Uma Análise Simbólica dentro da visão Junguiana
Leandro Zanetti Silva*
Carlos
Serbena**
RESUMO
Esse trabalho faz a analise simbólica do primeiro e segundo
capítulos do livro de Monteiro Lobato As caçadas de
Pedrinho,“E era onça mesmo” e “A volta
para casa”, considerando os mesmos como um conto de fadas
moderno. Monteiro Lobato foi escolhido por ser um grande nome da
literatura infantil, a serie sobre o Sítio do Pica-pau Amarelo
marcou época, inclusive sendo transformada em programa de
televisão. O objetivo desse trabalho é identificar
os temas arquetípicos presentes no texto citado, A metodologia
utilizada é a revisão bibliográfica, pelo método
de amplificação e análise simbólica,
conforme definido por Carl G. Jung e Marie L. Von Franz. Concluímos
com esse trabalho, que o presente conto refere-se a primeira etapa
do processo de individuação, e é conformado
estruturalmente pelo mito do herói.
Palavras-chave: Análise
Simbólica; Temas arquetípicos; Individuação;
Mito do herói.
Introdução
O presente trabalho faz a análise simbólica e interpretação
do primeiro e do segundo capítulo do livro de Monteiro Lobato
as Caçadas de Pedrinho, considerando os mesmos como um conto
de fadas moderno.
Contos de Fada, segundo Von Franz (1981) são a expressão
mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente
coletivo. Conseqüentemente, o valor deles para a investigação
do inconsciente é sobejamente superior a qualquer outro material,
pois eles representam os arquétipos na sua forma mais simples,
plena e concisa.
Segundo Hark (1988) arquétipos podem ser conceituados como
estruturas inerentes à psique humana, que ordenam, de acordo
com determinados padrões básicos, as imagens e os
motivos dentro do inconsciente, compondo assim a vivência
psíquica. Os arquétipos não são representações,
figuras herdadas ou símbolos, mas suas possibilidades de
manifestação e concretização.
Percebemos nos capítulos iniciais que há referência
a primeira etapa do processo de individuação: o encontro
com a sombra e a conformação estrutural pelo mito
do herói. Percebemos também a existência dos
arquétipos do ego, da sombra, da anima e do self.
Para Hark (1988), o ego é o arquétipo responsável
pela conservação da personalidade e por sua continuidade
e identidade pessoal. É com o ego que acontece a prova da
realidade ao nosso redor e dentro de nós. A sombra é
o arquétipo do renegado, do reprimido, das porções
reprimidas, inferiorizadas e culposas de uma pessoa, porções
que até então dominavam de modo inconsciente e ansiavam
pela integração a consciência. A anima representa
o arquétipo do feminino e da feminilidade no homem, feminilidade
essa oculta e inconsciente e que é projetada pelo homem sob
a forma de mulheres bem específicas, como a mãe, a
amante, a esposa, a irmã e sob inúmeras outras formas
femininas. E o self é o arquétipo da totalidade psíquica,
aonde estão contidas tanto as porções conscientes
como as inconscientes. Por ser um conceito transcendente, geralmente
o self manifesta-se em sonhos, mitos e contos de fada como uma personalidade
hierarquicamente superior, como rei, profeta, salvador.
Segundo Hark (1988), individuação é entendido
como o processo de desenvolvimento psíquico, de amadurecimento
e transformação, o tornar-se si próprio. A
primeira etapa representa o encontro com a sombra e aparece claramente
em nosso conto, conformado estruturalmente pelo mito do herói,
que Daniel C. Noel (Downing, org; 1991) elucida como sendo a nossa
aventura pessoal interior e que é dividido em três
partes; a separação ou abandono do lar para se empreender
em uma jornada rumo ao desconhecido; a iniciação ou
enfrentamento do monstro ou dragão e o retorno triunfante
ao lar. Para Noel a jornada mítica do herói pode ser
vista como a história da auto emancipação do
Ego, que se esforça para se libertar do poder do inconsciente
e firmar-se como presença própria vencendo obstáculos
monumentais. Uma vez que o inconsciente é, em termos junguianos
clássicos, “maternal”, a luta do herói
é nascer e depois superar e abandonar a Grande Mãe
do mito.
O objetivo desse trabalho é identificar os temas arquetipicos
no primeiro e segundo capítulo do livro de Monteiro Lobato
As caçadas de Pedrinho, lançado em 1933. Os capítulos
1, E era onça mesmo, e 2, a volta para casa, são equivalentes
a um conto de fadas moderno, devido a ter as mesmas características
de um conto de fadas, (Von Franz, 1921) que no caso é a penetração
popular de um conto, o fato de serem criações coletivas,
de fazerem parte do folclore, no caso dos contos modernos, da mídia,
e pelo fato de que da mesma maneira que os contos de fada, Monteiro
Lobato e sua obra já fazem parte do imaginário popular.
Monteiro Lobato foi escolhido para a execução desse
texto por ser um grande nome da literatura infantil, a sua série
sobre o sítio do Pica Pau amarelo marcou época, tamanho
foi o sucesso que anos mais tarde acabou sendo transformada em programa
de televisão, que até hoje faz sucesso com as crianças
e até com os adultos.
A metodologia utilizada foi a revisão bibliográfica
, pelo método de amplificação e analise simbólica,
conforme definido por Carl G. Jung e Marie L. Von Franz.
Segundo Von Franz (1981), amplificar significa alargar um tema através
da junção de numerosas versões análogas,
consistindo em conhecer o contexto médio, no qual aparece
um elemento, e confrontá-lo com material análogo.
Esse estudo permitirá compreender o que é específico,
e somente então poderá propiciar com consistência,
o que é exceção. A amplificação
foi utilizada nesse trabalho para a determinação dos
papéis arquetípicos dos personagens. A análise
simbólica consiste em relacionar e interpretar os elementos
do conto aos processos e a dinâmica psíquica.
Vida
e obra de Monteiro Lobato
Conforme dados obtidos na enciclopédia Larousse Cultural
(1998) e nas biografias anexas nos livros de Monteiro Lobato, da
editora Brasiliense, segue abaixo uma pequena biografia desse ilustre
autor da literatura infantil brasileira.
José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, em 18
de abril de 1882. Foi uma criança muita interessada pela
literatura, lendo durante sua infância tudo o que havia disponível
para crianças. Aos 18 anos entra para a faculdade de Direito
por imposição do avô e em 1904 diploma-se bacharel
em Direito. Ele escreve para jornais e revistas, até que
em 1918 editou o seu primeiro livro de contos, Urupês, com
grande sucesso.
Em 1921 estréia na literatura infantil com A menina do narizinho
arrebitado (republicado depois como Reinações de Narizinho).
Escreveu a seguir o Saci, O Marquês de Rabicó, Fábulas
e Jeca Tatuzinho, com milhões de exemplares vendidos.
Visitando os Estados Unidos da América, mostrou se empolgado
com o progresso, publicando em 1930 o livro América. Em 1931,
preocupado com o problema do petróleo, voltou ao Brasil fundando
a Companhia Petróleo do Brasil, sendo a luta pela exploração
do Petróleo no Brasil uma de suas bandeiras.
Em 1933 publicou As caçadas de Pedrinho, 1935 publicou contos
leves, contos pesados, Geografia de Dona Benta, Historia das invenções,
Memórias de Emilia. Em 1937 publicou Serões de Dona
Benta, Historias de Tia Nastácia, O poço do Visconde
e em 1939, O Minotauro, O pica pau amarelo, A reforma da natureza,
alem de contos.
Em março de 1941, em pleno Estado Novo, esteve preso por
haver endereçado a Getulio Vargas uma carta de crítica
a política brasileira de petróleo.
Em 4 de Julho de 1948 falece Monteiro Lobato, em decorrência
de problemas cardíacos. Os jornais da época de seu
falecimento inclusive publicavam que as crianças do Brasil
ficaram órfãs de seu grande escritor de Literatura
infantil, que além das obras de sua autoria, traduziu e adaptou
para crianças clássicos como Dom Quixote, Gulliver,
Robinson Crusoé e outros. Os personagens de seu Sitio do
Pica Pau amarelo fizeram tanto sucesso, que anos depois a série
foi adaptada e virou o famoso programa de televisão com o
mesmo nome.
Os
personagens do sítio do pica pau amarelo
As características dos personagens foram definidas através
dos resumos contidos nas biografias de Monteiro Lobato que estão
anexadas aos livros As caçadas de Pedrinho (1933), A Reforma
da natureza (1939), Memórias de Emília (1935) e Reinações
de narizinho (1921), bem como através da leitura dos mesmos.
Dona Benta: é a dona do sítio, é
ela quem cuida dos netos e dos demais personagens. Tem mais de sessenta
anos, ela é amorosa e maternal com os demais, ao mesmo tempo
que é a figura que cuida e administra o Sítio. Ela
aceita a criatividade dos netos e suas traquinagens.
Pedrinho: Neto de Dona Benta, tem 10 anos de idade. É um
garoto muito aventureiro e corajoso, adora novas aventuras, é
também um garoto muito criativo. Ele passa as férias
no Sítio com Dona Benta.
Narizinho: Seu nome é Lucia, tem 7 anos
e mora com sua avó Dona Benta. Ela adora a liberdade e novas
aventuras, é corajosa e conhece vários super –
heróis. Ela também é uma exploradora da natureza,
como podemos ver em algumas obras de Monteiro Lobato.
Emília: É a boneca de Narizinho que
fala. Ela foi criada por tia Nastácia. Emilia é muito
teimosa e traquinas, adora desafiar e provocar os outros personagens
do Sítio, ela é casada com o Marques de Rabicó,
mas esse é um casamento fictício, pois Emilia não
costuma levar as coisas a sério. Ela é muito criativa
e adora mudar as coisas.
Marquês de Rabicó: É o animal
de estimação de Narizinho. Esse leitão é
tremendamente covarde e guloso, a única coisa que importa
para ele na vida é farejar alguma coisa para comer. Ele é
“marido” de Emília e “filho” do Visconde
de Sabugosa.
Visconde de Sabugosa: foi criado por Pedrinho com
um sabugo de milho. Ele é o sabe tudo do Sítio, pois
ficou trancado na estante de livros de Dona Benta e leu todos, mas
ficou embolorado. É considerado por todos do Sítio
como uma figura importante e inteligente, com exceção
de Emilia, pois esta zomba de todos.
Tia Nastácia: É a criada de Dona Benta, tem
mais ou menos sessenta anos. Ela cozinha, cuida das crianças
e lhes conta histórias. É uma pessoa medrosa, ignorante
e sem cultura. Sua frase mais célebre é: “Esse
mundo esta perdido”.
E
era onça mesmo e A volta para casa
O conto inicia com Marquês de Rabicó aventurando-se
no capoeirão dos Taquaruçus, que era um mato em que
Dona Benta não deixava as crianças irem, e lá
ele encontrou rastros e ouviu miados que suspeitou serem de uma
onça. O Marquês chegou assustado em casa e comunicou
sua suposição a Pedrinho.
Pedrinho, acreditando em Rabicó, contou o fato a Narizinho.
Esta pensou em contar a Dona Benta sobre a descoberta da onça
por Rabicó, mas Pedrinho a impediu, pois Dona Benta não
os deixaria caçarem a onça.
Narizinho tentou persuadir Pedrinho a desistir da idéia ,
mas Pedrinho foi irredutível em seu propósito, e disse
que partiria para essa caçada nem que fosse sozinho. Narizinho,
vendo a bravura de Pedrinho e não querendo ficar para trás,
aceitou participar da expedição.
Então os dois saíram em busca dos demais companheiros.
O primeiro que encontraram foi Rabicó, este não queria
participar da caçada, mas Pedrinho o obrigou a ir. O segundo
que encontraram era Visconde de Sabugosa, que aceitou o convite
com toda a dignidade e nobreza, e por fim convidaram Emília,
que recebeu a idéia com palmas, pois enfim teriam uma aventura
importante.
Todos se prepararam para a expedição. Pedrinho levou
uma espingardinha que ele mesmo fabricara, Narizinho levou uma faca
de cortar pão. O Visconde recebeu um sabre feito de barril
e também o comando da expedição. Emília
levou como arma o espeto de assar frango e para o Marquês
de Rabicó, Pedrinho deu arreios, atrelando-o a um canhãozinho
para que não fugisse.
No dia marcado, saíram em silêncio para que as duas
senhoras não percebessem. Passaram a porteira do pasto e
seguiram rumo ao capoeirão da onça. Na mata eles encontraram
os rastros da onça, o coração dos heróis
bateu mais rápido, menos o de Emília, que como todos
sabem, não tem coração.
Todos seguiram o rastro da onça, quando a avistaram em uma
moita. Esta manhosamente dirigiu-se para o lado dos heróis,
o Visconde deu o berro de comando fogo, mas os tiros de Pedrinho
e Rabicó foram inúteis. Os heróis tiveram que
abrigar-se no alto de uma árvore para se protegerem da onça,
que pacientemente aguardava que eles descessem.
Após um tempo em cima da árvore, Pedrinho percebeu
que tinha um pouco de pólvora no seu bolso, e a jogou nos
olhos da onça. Então todos desceram da árvore
e atacaram a onça com verdadeira fúria, usando suas
respectivas armas.
Atacada por todos os lados a onça morreu. Todos brigaram
pelo mérito de tê-la matado. Porém o Visconde
de Sabugosa disse que o mérito principal era de Pedrinho,
pois se ele não tivesse cegado a onça com a pólvora
ninguém a teria matado. Finalmente os heróis levaram
a onça para o sítio, para espanto de Dona Benta e
Tia Nastácia.
Análise
e interpretação do conto
Dona Benta e a Grande mãe
A
grande mãe, representada por Dona Benta, que como podemos
ver em outras obras de Lobato, é quem cuida do sítio
e das crianças, e também tem um amor e uma aceitação
para com seus netos e os outros personagens do sítio. Para
Woolger & Woolger (1987,1989) Dona Benta pode ser vista como
Deméter, pois representa a face da anima que cuida, que nutre,
que é fértil, pois além de ser ela que dá
o sustento físico e emocional para seus netos e demais personagens,
ela aceita a imaginação e a criatividade destes. Segundo
Hark, (1988), a grande mãe é uma imagem primordial
que atua na psique, mas que não é derivada da experiência
concreta com a mãe. Dona Benta nesse contexto pode ser vista
como essa face da anima do herói que lhe dá a sustentação
e a segurança que ele necessita para a sua jornada. A anima
é um arquétipo da vida psíquica e da feminilidade
dentro do Homem, que se desenvolve no confronto e nos inúmeros
encontros com a mãe. Estão contidas nessa imagem arquetípica
todas as experiências com a série de antepassados femininos.
E Hark continua:
“
Segundo Jung, essa figura interior feminina dentro do homem é
“um sistema herdado de adequação psíquica”.
Os homens vivenciam essa feminilidade oculta e inconsciente em suas
projeções, sob a forma de mulheres bem específicas,
por exemplo, de mãe, de amante, de esposa, de irmã,
de prostituta e sob inúmeras outras formas femininas. Além
disso, encontramos nos contos de fadas, nos mitos, na literatura
e nas religiões uma infinidade de formas de manifestação
das imagens da anima, como sílfides, bruxas, fadas, rainhas
e deusas” (Hark, 1988, pág. 17)
No entanto, nesse conto Dona Benta também mostra um aspecto
dominador, pois pelo fato de ela não permitir que o herói
vá a floresta, quer impedir o desenvolvimento da individuação
do herói. Por individuação Hark (1988) define
como um processo psíquico de amadurecimento e transformação,
no qual o indivíduo passa por um desenvolvimento da personalidade
individual, e é freqüentemente descrita em conjunto
com os conceitos de auto realização e totalização
da pessoa, faz parte da individuação e do “tornar-se
si mesmo” o confronto com todas as “dominantes psíquicas”
inconscientes e transpessoais. Assim podemos notar o duplo aspecto
que a figura de Dona Benta tem no conto. Tia Nastácia tem
papel análogo ao de Dona Benta, o de Grande mãe, percebemos
isso devido ao cuidado que ela dispensa aos netos de Dona Benta.
O Herói e sua sombra
Notamos que o conto começa com o Marques de Rabicó,
leitão do sitio do pica-pau amarelo que conhecia todas as
florestas, inclusive o capoeirão dos Taquaruçus, mato
muito cerrado onde Dona Benta não deixava as crianças
passearem.
Para Chevalier & Gheerbraint (1982), o porco simboliza as tendências
obscuras, sob todas as suas formas, da ignorância, da gula,
do egoísmo, da luxuria, da perversidade, da sujeira. Existe
contudo uma exceção notável. Devido a sua aparência
próspera, os sino – vietnamitas fazem do porco um símbolo
da abundância. O porco pode ser considerado um símbolo
da sombra. A floresta simboliza para o psicanalista moderno, por
sua obscuridade e seu enraizamento profundo, o inconsciente. Os
Terrores da floresta, seriam inspirados, pelo medo das revelações
do inconsciente.
O marques de Rabicó um dia se aventurou no capoeirão
dos Taquaruçus e chega assustado em casa, ele conta a Pedrinho
que viu sinais na mata que suspeitava que fossem de onça.
Nos Contos de Fada, é comum os heróis terem o seu
duplo, um companheiro de características opostas. Pedrinho,
o herói desse conto tem como sua sombra ou duploRabicó.
Nesta parte notamos o encontro do herói ego com a sua sombra,
o herói Pedrinho e sua sombra representada por Rabicó,
esse encontro traz a revelação de um perigo na floresta,
no caso o Inconsciente. Vejamos o que diz Hark(1988) a respeito
da sombra:
“
Fazem parte da sombra todas as porções reprimidas,
inferiorizadas e culposas de uma pessoa, porções que,
até então, dominavam de modo inconsciente e ansiavam
pela integração à consciência. Esse é
um problema moral complicado e, ao mesmo tempo, um importante passo
rumo ao autoconhecimento.
A conscientização da sombra não é uma
tarefa importante apenas na fase inicial da psicoterapia analítica.
Mais que isso, é uma tarefa para toda a vida do ser humano.
Contudo, freqüentemente as próprias porções
da personalidade são projetadas sobre os outros e neles combatidas
por engano. Por essa razão, tanto o tornar-se consciente
a respeito da sombra quanto anular essas projeções
constituem tarefas muito sérias.” (Hark, 1988, pág.
122).
E vejamos o
que diz Hark(1988) a respeito do Ego:
“O
ego é responsável pela conservação da
personalidade e por sua continuidade e identidade pessoal. É
com o ego que acontece a prova da realidade ao nosso redor e dentro
de nós. É no ego que percebemos as tensões
e os contrastes entre a consciência e o inconsciente. O ego
tenta, continuamente, assimilar os conteúdos inconscientes
e traduzi-los em possibilidades de experiência para a consciência.
(Hark, 1988, pág. 46)”
Devido
ao fato de Rabicó, em todos os livros de Monteiro Lobato
ser um grande medroso e glutão, acomodado, ele tem as características
opostas a de Pedrinho, que nos livros de Lobato sempre se mostra
corajoso e ousado, tendo gosto para as novidades e aventuras do
sítio. Podemos ai deduzir que Rabicó representa aspectos
reprimidos de Pedrinho. A onça, que se aproxima simbolicamente
do tigre, devido ao fato de ambos serem felinos, ferozes e viverem
nas selvas e florestas, no dicionário de símbolos
( Chevalier & Gheerbrant, 1982), simboliza a bestialidade dos
impulsos instintivos, o obscurecimento da consciência, os
instintos que mostram-se sob o seu mais agressivo aspecto, por que
presos na selva, tornaram-se completamente desumanos. É uma
figura da sombra ainda mais profunda e inconsciente que a de Rabicó,
por ser uma figura da sombra coletiva, dos instintos mais inconscientes,
pode ser vista também como a Grande Mãe do mito em
seu aspecto destrutivo, o inconsciente maternal que o herói
precisa enfrentar. Assim mesmo, ela também representa a consciência
superior, o mundo da vida e da luz nascente, que se for confrontada
traz ao herói possibilidades de renovação e
transformação.
A jornada do herói e seus companheiros
Pedrinho conta para Narizinho a descoberta da onça na floresta
por Rabicó. Ela pensa em contar para Dona Benta. Pedrinho
a impede de fazer isso, pois Dona Benta não permitiria que
eles ficassem no sitio. Ele sugere a Narizinho a caçada da
onça. Esta tenta persuadir Pedrinho a desistir da idéia,
por causa do perigo da onça devorá-los. Ele fala que
o que vale é ter coragem, e diz que vai organizar a expedição
de caça a onça, e se ninguém for com ele, ele
vai sozinho. Narizinho, não querendo ficar atrás de
Pedrinho, mostra sua coragem e aceita participar da expedição.
O herói Pedrinho, após saber de revelações
do inconsciente, através da figura de Rabicó, que
explorou a floresta, entra em contato com a figura da anima, no
caso Narizinho. Percebe-se no conto que o herói precisa libertar-se
do complexo materno em sua Anima , que é representado por
Dona Benta, para então ocorrer a integração
da anima como sua aliada. Isso ocorre quando Narizinho decide participar
da expedição. Narizinho em outras obras de Monteiro
Lobato é corajosa e não tem medo de aventuras, sempre
parte em busca do novo, podemos ver isso no livro reinações
de Narizinho, aonde a personagem sempre é muito ousada e
independente e vive diversas aventuras, inclusive casa com um príncipe
do fundo do mar, o príncipe escamoso, casamento esse que
é muito independente e fora do convencional. Nesse caso podemos
ver a Anima do herói como Ártemis ( Woolger &
Woolger, 1987,1989), a aventureira, a caçadora, a anima em
sua face Ártemis é independente e guerreira, é
ela também que rege as matanças e as caçadas,
e como percebemos no conto o herói pretende caçar
a onça e comunica essa decisão a Ártemis-Narizinho.
Pedrinho e Narizinho saem em busca dos demais companheiros. Rabicó,
com medo, reluta em participar e é obrigado a ir por Pedrinho.
Visconde de Sabugosa aceita a proposta com toda a dignidade e nobreza.
Emilia recebe a proposta com palmas, pois enfim iriam ter uma aventura
e ela já estava se sentindo embolorada por dentro com a vida
vazia do sitio.
Visconde de Sabugosa pode ser visto como uma figura do self, valorosa,
que ainda está para ser desenvolvida, pois nos livros de
Lobato percebemos que Visconde é sábio, mas um sábio
excessivamente racional, que só sabe decorar fórmulas
e conceitos, e que chega a ficar embolorado por ficar muito tempo
na estante de livros de Dona Benta.
Segundo Hark (1988), com o conceito de self, Jung tenta descrever
de modo aproximativo a totalidade da personalidade Humana, ele é
o ponto central da personalidade, o self engloba o experienciável
e o inexperienciável, bem como o que ainda não foi
experienciado. Visconde pode ser visto também como o Senex
( Downing, org; 1991), que James Hilman descreve como o ser em que
não há sabedoria, somente conhecimento, conhecimento
este que é sério, deprimente e encapsulado em saguões
acadêmicos.
Emilia, em outros livros de Lobato, é uma personagem teimosa,
desafiadora, que adora aventuras e coisas novas, e que também
adora traquinagens e irritar os outros personagens do Sitio com
sua atitude desafiadora, que adora reparar aonde estão os
pontos fracos de outros personagens e atormentá-los. Podemos
vê-la como o arquétipo do embusteiro ou Trickster (Downing,
org; 1991) conforme descrito por William G. Doty. O herói
precisava ativar essa figura arquetípica para ter sucesso
em sua missão, pois o fato de não usar esse embusteiro
interior já o estava deixando “embolorado” por
dentro. Essa figura, conforme sugere Willian G. Doty, é a
figura que desafia os padrões pré-estabelecidos pela
sociedade comportando-se de maneira inconveniente e criativa. O
herói tinha a necessidade de desafiar a norma estabelecida
por Dona Benta de não ir ao Capoeirão dos Taquaruçus
Realizam-se os preparativos. Todos levam armas para a caçada,
Pedrinho espingardinha de pólvora, narizinho leva a faca
de cortar pão, Emilia leva espeto de assar frango. Visconde
de Sabugosa recebe um sabre e o comando da expedição.
Rabicó ao invés de armas recebe arreios, carrega um
canhãozinho sobre um carrinho para não fugir.
Como Visconde de Sabugosa é velho sábio, figura do
self, simbolizado pela espiga de milho, que segundo Chevalier &
Gheerbraint (1982)é um símbolo de amadurecimento psicológico,
este recebe o comando da expedição. Rabicó,
como um aspecto da sombra, é integrado ao herói, que
o obriga a ir de arreios levando um canhãozinho. Podemos
perceber a integração da sombra pelo Herói,
pois apesar de Rabicó ser uma figura da sombra, traz importantes
aspectos do si-mesmo latentes e por isso é integrado pelo
herói .
No dia marcado, os heróis saem para a expedição
sem que as duas senhoras percebessem atravessaram a porteira do
pasto, a mata dos tucanos vermelhos até chegarem no capoeirão
da onça. No capoeirão encontraram os rastros e o coração
de todos bate mais forte, menos o de Emilia, que não tinha
coração. Emilia inclusive caçoa de Pedrinho,
dizendo que ele estava com medo, e este irritado diz que só
tem medo de uma coisa nessa vida, que é marimbondo.
Os heróis, saindo sem as duas senhoras perceberem, estão
abandonando a figura da grande mãe e partindo rumo a sua
individuação, pois Tia Nastácia tem um papel
análogo ao de Dona Benta, no caso o papel de Grande mãe,
pois apesar de ela aparecer pouco nesse conto, ela tem um papel
fundamental no cuidado dos netos de Dona Benta.
O portão, símbolo que devido as suas características
se aproxima da porta, (Chevalier & Gheerbraint, 1982) representa
o local de passagem entre dois estados, entre dois mundos, a passagem
do consciente para o inconsciente, a floresta como vimos antes simboliza
o inconsciente. Os rastros da onça mostram ao herói
a revelação do inconsciente, o perigo que ele terá
que enfrentar. Pelo fato de Emilia ser uma boneca, não ter
coração, não ter os sentimentos de um humano,
ela caçoa de Pedrinho, dizendo que este estava com medo.
Emilia, como vimos antes, representa a figura do embusteiro, que
desafia e caçoa do herói, que volta para lembrar ao
herói de sua fraqueza em relação aos seus próprios
sentimentos, mostrando o medo que o herói ainda tem e que
não quer mostrar, ela mostra o medo do herói em enfrentar
sua sombra e vivenciar os aspectos mais instintivos e profundos
do seu inconsciente.
O desafio do herói: a caçada
Concluído que os rastros eram da onça, através
de um exame cuidadoso do Visconde de Sabugosa, todos seguiram o
rastro da onça por cerca de meia hora. O Visconde com seu
binóculo avistou a onça em uma moita. A onça
dirigiu-se manhosamente para o lado dos heróis. Visconde
de Sabugosa dá a ordem de ataque, os ataques de Pedrinho
e Rabicó falham. Pedrinho, Narizinho e Emilia sobem em uma
árvore e também salvam Visconde de Sabugosa e Rabicó.
Ai notamos que o primeiro encontro com a sombra e os aspectos agressivos
do seu instinto falha, sendo isso representado pelos ataques frustrados
de Pedrinho e Rabicó contra a onça. Sabugosa e Rabicó
são salvos por Pedrinho e Narizinho. Todos se abrigam no
alto de uma arvore que é o símbolo (Chevalier &
Gheerbraint, 1982) da perpetua evolução e ascensão
para o céu, simboliza também o aspecto cíclico
da evolução cósmica: morte e regeneração.
A árvore também é um símbolo da grande
mãe, nesse caso em seu aspecto positivo, e esse papel podemos
ver também pelo fato dela dar proteção e abrigo
para os heróis, para que eles se regenerassem e enfrentassem
a onça.
E por fim, o herói Pedrinho, do alto da arvore, joga um pouco
de pólvora nos olhos da onça, pólvora que ele
notou que tinha em seu bolso. Todos descem da árvore e liquidam
a onça, inclusive Rabicó, que era o mais medroso.
O triunfo do herói
O herói triunfa, após o renascimento, quando esteve
na arvore, e até Rabicó, que era sua parte mais medrosa,
renasce e cria coragem para enfrentar a onça. Todos os elementos
de sua psique contribuíram para que ele matasse o dragão
e passasse pela sua iniciação, que é a vitória
sobre a Grande Mãe do mito.
Os heróis brigam para ver de quem era o mérito pela
morte da onça, e o Visconde de Sabugosa fala que todos tem
mérito, mas que o mérito maior era de Pedrinho, pois
se não fosse ele cegar a onça, ninguém poderia
combatê-la. Os heróis voltam triunfantes para o sítio,
e mostram a onça para Dona Benta e Tia Nastácia, que
ficam espantadas com o feito deles.
Essa é a terceira parte do mito do herói, o retorno
para casa, mas ainda ocorreram conflitos entre os elementos da psique,
sendo isso simbolizado pela briga para decidir de quem era o mérito
pela morte da onça. Visconde de Sabugosa, fazendo o papel
do self, decidindo que o mérito pela morte da onça
era de Pedrinho, simbolicamente demonstrou que é o ego que
deve assumir a responsabilidade pelo processo de individuação.
Percebemos no conto que o ego ou herói foi até a floresta,
que é um símbolo do inconsciente, enfrentou a prova
que era derrotar a grande mãe do mito, no caso a onça,
que é um símbolo dos aspectos destrutivos do inconsciente,
com a ajuda de outros elementos da Psique, e retornou a consciência,
ao sitio, transformado pela experiência do confronto com seu
inconsciente, e de certa maneira mais senhor de si-mesmo, individuado,
causando espanto e admiração até mesmo em Dona
Benta e Tia Nastácia, que também são figuras
da Grande mãe no conto. O confronto com o inconsciente e
seus aspectos destrutivos foi importante para o Herói, pois
através deste confronto o herói obteve uma maior integração
do inconsciente-consciente, que trouxe para sua vida uma renovação
e uma transformação positiva, típica do processo
de individuação, pois até Dona Benta e Tia
Nastácia, que são figuras da Grande Mãe, se
surpreendem e aceitam o fato do Herói ter derrotado a onça.
Conclusão
Percebemos a presença do mito do herói no conto, dividindo-se
em três partes, como visto anteriormente.
A primeira parte seria a separação, o abandono do
lar materno, que no conto aparece como o herói e seus aliados
deixando o sitio de Dona Benta para ir a floresta caçar a
onça.
A segunda parte significa a iniciação ou enfrentamento
do Dragão ou Monstro, que no conto é a parte em que
Pedrinho e os outros Personagens enfrentam e derrotam a onça.
Por fim a terceira parte é a volta para casa ou retorno ao
lar, que no conto Pedrinho e seus aliados levam a onça para
o Sítio de Dona Benta.
Podemos também observar a primeira etapa do processo de individuação,
que é o encontro com a sombra, tanto na parte em que Pedrinho
encontra Rabicó, quanto na parte que Pedrinho encontra a
onça.
Os contos de fada, hoje em dia, continuam a nossa volta, só
que de maneira diferente. Podemos notar a presença dos mesmos
no cinema, na literatura, nas artes, nos programas de televisão
e mesmo nas histórias em quadrinhos.
Assim concluímos relevando a importância que os contos
de fada, tanto antigos como modernos tem para a Psicologia Analítica,
pois fornecem uma riqueza de temas arquetípicos para serem
interpretados pelos Psicólogos Junguianos.
Autores:
Leandro Zanetti Silva* - Graduando do 5º ano de Psicologia
da Universidade Tuiuti do Paraná – Hoje Psicólogo
CRP 08/0997 - leandrozs@yahoo.com.br
Carlos Serbena** - Professor do Curso de Psicologia da Universidade
Tuiuti do Paraná, supervisor na confecção do
trabalho
Artigo apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso atendendo
aos requisitos necessários para a aprovação
na habilitação Formação de Psicólogos.
Universidade Tuiuti do Paraná.Curitiba, 2003
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MONTEIRO
LOBATO. In: LAROUSSE cultural. São Paulo: Nova Cultural,
1998. p. 4068, vol. 17.
Agradecimentos
ao Psicólogo Leandro Zanetti Silva por permitir a reprodução
do seu artigo científico no site Atlaspsico. Obrigado!
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